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Capítulo 10 de 28 · linguagem simples

Bem-aventurados os misericordiosos

Perdão, reconciliação, tolerância e misericórdia.
Seu progresso fica salvo somente neste aparelho.

Perdoem para que Deus lhes perdoe - Reconciliar-se com os adversá- rios - O sacrifício mais agradável a Deus - O cisco e a grande viga no olho - Não julguem para não serem julgados. Aquele que estiver sem pecado atire a primeira pedra - Instruções dos Espíritos: Perdão das ofensas - A compreensão - É permitido repreender os outros? Observar as suas imperfeições e divulgar o mal alheio?

Perdoem para que Deus lhes perdoe

1. “Bem-aventurados os misericordiosos, pois eles terão misericórdia.” (Mateus, V:7)

2. “Se perdoarem aos homens as ofensas contra vocês, seu Pai celestial também lhes perdoará os seus pecados. Mas se vocês não perdoarem aos homens, tampouco seu Pai lhes perdoará os seus pecados.” (Mateus,

VI:14-15)

3. “Se seu irmão pecou contra vocês, vão e corrige-lhe a falta, particularmente, entre vocês e ele. Se ele lhes ouvir, terão conquistado o seu irmão. Então, Pedro se aproximando Lhe disse: Senhor, quantas vezes perdoarei meu irmão quando ele tiver pecado contra mim? Será até sete vezes? - Jesus lhe respondeu: Eu não lhes digo até sete vezes, mas que até setenta vezes

sete vezes.” (Mateus, XVIII:15, 21 e 22)

4. A misericórdia é o complemento da calma e gentileza, pois os que não são misericordiosos também não são mansos e pacíficos. Ela consiste no esquecimento e no perdão das ofensas. O ódio e o rancor denotam uma alma sem elevação e sem grandeza. O esquecimento das ofensas é próprio das almas elevadas, que estão acima do mal que lhe quiseram fazer. Uma está sempre ansiosa, de uma sensibilidade sombria e amargurada; a outra é calma, cheia de calma e gentileza e caridade. Infeliz daquele que diz: “Eu não perdoarei nunca!”. Pois, se ele não for condenado pelos homens, o será certamente por Deus. Que direito tem aquele que pede o perdão pelas suas próprias faltas, se ele mesmo não perdoa aos outros? Jesus nos ensina que a misericórdia não deve ter limites, quando diz para perdoar seu irmão não sete vezes, mas setenta vezes sete vezes. Mas há duas maneiras bem diferentes de perdoar. Uma é grande, nobre, realmente generosa, sem segunda intenção, tratando com delicadeza o orgulho pessoal e a suscetibilidade do adversário, mesmo quando a culpa foi totalmente dele; a segunda, é quando o ofendido, ou aquele que assim se julga, obriga ao outro condições humilhantes, fazendo-o sentir o peso do perdão que irrita, em vez de acalmar. Se estende a mão, não é por bondade, mas por exibição, para poder dizer a todos: “Vejam como eu sou

generoso!”. Em tais circunstâncias, é impossível que a reconciliação seja sincera, de ambas as partes. Não, isso não é generosidade, mas uma maneira de satisfazer o orgulho. Em todas as contendas, aquele que se revela mais conciliador, que mostra maior desinteresse, caridade e verdadeira grandeza de alma, conquistará sempre a simpatia das pessoas imparciais.

Reconciliar-se com os adversários

5. “Reconcilia-te o mais cedo possível com o seu adversário, enquanto está junto dele, para que ele não te entregue ao juiz, e este não te entregue ao seu ministro, para seres preso. Eu te digo, na verdade, que de lá não sairás enquanto não pagares até o último ceitil.” (Mateus,

V:25-26)

6. Há, nas práticas do perdão e do bem, em geral, mais do que um efeito moral, há também um efeito material. A morte, já sabemos, não nos livra dos nossos inimigos. Os Espíritos vingativos perseguem frequentemente com o seu ódio, além do túmulo, aqueles contra quem conservaram algum rancor. É por isso que o provérbio: Morto o cão, acaba a raiva, é falso, quando aplicado ao homem. O Espírito mau espera que aquele a quem quer mal esteja encarnado, para atormentá-lo mais facilmente, atingindo-o em seus interesses ou em seus afetos mais caros. É preciso ver nesse fato a causa da maior parte dos casos de obsessão, daqueles principalmente que apresentam uma certa gravidade, como a domínio e a possessão. O obsidiado e o obsessor são, quase sempre, vítimas de uma vingança anterior, a que deram motivo por sua conduta. Deus permite a situação atual, para os punir do mal que fizeram por si mesmos - ou, se não o fizeram, por haverem faltado com a compreensão e a caridade, deixando de perdoar. O que importa, então, do ponto de vista da sua tranquilidade futura, é reparar, o mais cedo possível, os erros que cometemos contra o nosso próximo, e perdoar aos nossos inimigos, para suprimir, antes da morte, os motivos de desavença, toda causa proveniente de hostilidade posterior; desta maneira, de um inimigo encarnado neste mundo, pode-se fazer um amigo no outro. De qualquer forma, coloca-se o bem acima de tudo e Deus não deixa aquele que perdoou ao sabor da vingança. Quando Jesus recomenda que se reconcilie o mais cedo possível com o adversário, não é simplesmente para evitar as discórdias na existência atual, mas para evitar também que elas se perpetuem nas existências futuras. Vocês não sairão de lá, diz ele, até que tenham pago até o último ceitil, ou seja, cumprido completamente a justiça de Deus.

O sacrifício mais agradável a Deus

7. “Então, se no momento de apresentar a sua oferta diante do altar, lembrares que o seu irmão tem algo contra ti, deixa o seu presente ao pé do altar, e vai antes te reconciliar com o

seu irmão, para depois voltares e fazer a sua oferta.” (Mateus, V:23-24)

8. Quando Jesus disse: “Vai reconciliar-te com seu irmão antes de apresentar a sua oferta ao altar”, Ele ensina que o sacrifício mais agradável ao Senhor é o de seu próprio ressentimento; que antes de se apresentar a Ele para ser perdoado, é preciso que se perdoe aos outros. E se cometemos um erro contra um de nossos irmãos, é preciso tê-lo reparado. Só assim a oferta será aceita, pois virá de um coração puro de qualquer mau pensamento. Ele materializa esse ensinamento, porque os judeus ofereciam sacrifícios materiais, e era preciso conciliar as Suas palavras aos costumes do povo. O cristão não oferece presentes materiais, pois que espiritualizou o sacrifício, mas nem por isso o ensinamento tem menos força para ele. Ele oferece sua alma a Deus e essa alma deve estar purificada. Ao entrar no templo do Senhor, deve deixar lá fora todo sentimento de ódio e de hostilidade, e todo mau pensamento contra seu irmão. Somente assim a sua prece será levada pelos anjos aos pés do Eterno. É isso o que ensinam as palavras de Jesus: “Deixem a sua oferta aos pés do altar e vai primeiro te reconciliar com seu irmão”, se quer ser agradável ao Senhor.

O cisco e a grande viga no olho

9. “Por que vês um cisco no olho de seu irmão, e não vês a grande viga no seu? Como dizes ao seu irmão: Deixa-me tirar um cisco de seu olho, se tem uma grande viga no seu? Pessoa falsa! Tirem primeiramente a grande viga de seu olho, e então verá como hás de tirar o cisco do olho de seu irmão.” (Mateus,

VII:3-5)

10. Um dos caprichos da Humanidade é ver o mal alheio antes de ver aquele que está em nós. Para julgar-se a si mesmo, será preciso mirar-se num espelho, transportar-se de alguma forma para dentro de si mesmo, e considerar-se como outra pessoa, perguntando: O que pensaria eu se visse alguém fazendo o que faço? É o orgulho, incontestavelmente, o que leva o homem a esconder as suas próprias faltas, tanto morais como físicas. Esse capricho é essencialmente contrário à caridade, pois a verdadeira caridade é modesta, simples e compreensivo. A caridade orgulhosa não tem sentido, já que esses dois sentimentos se neutralizam mutuamente. De fato, como um homem, tão sem importância para acreditar na importância de sua personalidade e na supremacia de suas qualidades, poderia ter, ao mesmo tempo, tanta desapego pessoal para fazer ressaltar nos outros o bem que poderia eclipsá-lo, em vez do mal que poderia colocá-lo em destaque? Se o orgulho é a fonte de muitos vícios, é também a negação de muitas virtudes; nós o encontramos no fundo, e como móvel de quase todas as ações. Foi por isso que Jesus se empenhou em combatê-lo, como o principal obstáculo ao progresso.

Não julguem para não serem julgados.

Aquele que estiver sem pecado

atire a primeira pedra

11. “Não julguem para não serem julgados, pois serão julgados da mesma maneira como julgarem os outros; e se usará com vocês, da mesma medida com que medirem a eles.” (Mateus,VII:1-2)

12. “Então, os escribas e os fariseus Lhe levaram uma mulher que havia sido apanhada em adultério, e puseram-na no meio do povo, dizendo a Jesus: Mestre, esta mulher foi surpreendida em adultério. Moisés nos ordena, na Lei, que apedrejemos as adúlteras. O que achas disso? Eles disseram isso para tentá-Lo, para O poderem acusar. Mas Jesus, abaixando-se, pôs-se a escrever com o dedo na terra. Como eles continuassem a interrogá-Lo, Ele se levantou e lhes disse: Aquele dentre vocês que estiver sem pecado atire-lhe a primeira pedra. Depois, abaixando-se de novo, Ele continuou a escrever na terra. Mas os homens, ouvindo-O, foram se retirando um após o outro - sendo os mais velhos os primeiros - e, assim, ficaram apenas Jesus e a mulher, em pé no meio da praça. Jesus, então, levantando-se, lhe disse: Mulher, onde estão os seus acusadores? Ninguém te condenou? Respondeu ela: Não, senhor. Jesus lhe disse: Eu também não te condenarei. Vá e não peques mais.” (João,

VIII:3-11)

13. “Aquele que estiver sem pecado atire-lhe a primeira pedra”, disse Jesus. Essa máxima faz da compreensão um dever, pois não há quem dela não precise para si mesmo. Ela nos ensina que não devemos julgar os outros mais com rigor do que julgaríamos a nós mesmos, nem condenar nos outros o que nos desculpamos em nós. Antes de recriminar uma falta de alguém, vejamos se a mesma crítica nos caberia. A censura lançada sobre a conduta alheia pode ter dois motivos: reprimir o mal, ou desacreditar a pessoa cujos atos criticamos. Este último motivo jamais tem desculpa, pois decorre da hábito de falar mal dos outros e da maldade. O primeiro pode ser louvável, e torna-se mesmo um dever em certos casos, já que dele deve resultar um bem, e porque sem ele, o mal nunca seria reprimido na sociedade. O homem, além disso, não deve ajudar no progresso de seu semelhante? É preciso, porém, não tomar esse princípio no sentido absoluto: “Não julguem para não serem julgados”, pois “a letra mata, e o Espírito vivifica”. Jesus não podia proibir a censura do mal, já que Ele mesmo nos deu exemplo disso, e o fez em termos enérgicos. Mas quis dizer que a autoridade da censura está na razão da autoridade moral daquele que a pronuncia. Tornar-se culpável daquilo que condenamos nos outros é abdicar dessa autoridade. É, além disso, arrogar-se, arbitrariamente, o direito de repressão. A consciência íntima, além do mais, refuta qualquer respeito e toda submissão voluntária àquele que, estando investido de um poder qualquer, viola as leis e os princípios que está encarregado de aplicar. A única autoridade legítima aos olhos de Deus é a que se apoia no bom exemplo. É o que sobressai igualmente das palavras de Jesus.

Instruções dos Espíritos

Perdão das ofensas

Simeão - Bordeaux, 1862

14. Quantas vezes perdoarei ao meu irmão? “Perdoarão não apenas sete vezes, mas setenta vezes sete.” Essas são algumas das palavras de Jesus que mais devem tocar a sua inteligência e falar mais alto ao seu coração. Comparem essas palavras misericordiosas com a prece tão simples, tão resumida e ao mesmo tempo tão grande nas suas aspirações - e que Jesus ensinou aos Seus discípulos, - e encontrarão sempre o mesmo pensamento. Jesus, o justo por excelência, responde a Pedro: Você perdoarás, mas sem limites; perdoarás cada ofensa, tantas vezes quantas ela te for feita; ensinarás aos seus irmãos esse esquecimento de si mesmos, que nos torna invulneráveis às agressões, aos maus- tratos e às ofensas; será doce e humilde de coração, não medindo jamais a sua calma e gentileza; e fará, enfim, para os outros, o que desejares que o Pai celestial faça por ti. Ele não te perdoou tantas vezes? Contaram o número de vezes que o seu perdão veio apagar as suas faltas?

Escutem, então, essa resposta de Jesus e, como Pedro, aplicai-a a vocês mesmos. Perdoem, usai de compreensão, sejam caridosos, generosos, gastadores no seu amor. Deem, pois, e o Senhor lhes recompensará; perdoem, pois o Senhor lhes perdoará, curvem-se, e o Senhor lhes elevará, humilhem-se, e o Senhor lhes fará sentar à Sua direita. Vão, meus bem-amados, estudem e comentem essas palavras que eu lhes dirijo, da parte Daquele que, do alto dos esplendores celestiais lhes vê sempre, e continua com amor o trabalho ingrato que começou há dezoito séculos. Perdoem, pois, aos seus irmãos, como têm necessidade de perdão. Se os atos deles lhes prejudicaram pessoalmente, é um motivo a mais para serem compreensivos, pois o mérito do perdão é proporcional à gravidade do mal. Não haveria porque não esquecer os erros de seus irmãos se eles lhes incomodassem apenas levemente. Espíritas, não esqueçam jamais que, tanto em palavras como em ações, o perdão das ofensas não deve ser uma palavra vã. Se lhes dizem espíritas, sejam-o, de fato. Esqueçam o mal que lhes tenham feito e pensem apenas numa coisa: no bem que puderem fazer. Aquele que entrou nesse caminho não deve dele se afastar, mesmo que em pensamento, pois são responsáveis pelos seus pensamentos, que Deus conhece. Façam, pois, que eles sejam desprovidos de todo sentimento de rancor. Deus sabe o que existe no fundo do coração de cada um. Feliz daquele que pode dizer cada noite ao dormir: nada tenho contra o meu próximo.

Paulo, apóstolo - Lyon, 1861

15. Perdoar aos inimigos é pedir perdão para si mesmo; perdoar aos amigos é dar-lhes prova de amizade; perdoar aos inimigos é mostrar que nos tornamos melhores. Perdoem, então, meus amigos, para que Deus lhes perdoe, pois se fordes duros, exigentes, inflexíveis, se fordes rigorosos até mesmo com uma pequena ofensa, como querem que Deus esqueça que todos os dias têm grande necessidade de compreensão? Ah! Infeliz daquele que diz: “Eu não perdoarei nunca”, porque pronuncia a sua própria condenação. Quem sabe se, mergulhando em vocês mesmos, não descobrirão que foram o agressor? Quem sabe se, nessa luta que começa com um simples irritação e termina numa ruptura, não deram o primeiro golpe? Se não lhes escapou uma palavra ferina? Se usaram de toda a moderação necessária? Sem dúvida, o seu adversário está errado ao se mostrar tão suscetível, mas esse é ainda um motivo para serem compreensivos, e para não merecer ele a sua crítica. Admitamos que têm sido realmente o ofendido, numa dada circunstância. Quem diz que não têm envenenado o caso com represálias e que não têm feito se transformar em questão mais séria o que facilmente poderia ter caído no esquecimento? Se dependia de vocês impedir as consequências e nada fizeram, são realmente culpado. Admitamos, enfim, que não tenham nenhuma crítica quanto à sua conduta. Terão, então, maior mérito se lhes mostrarem clementes. Mas há duas maneiras bem diferentes de perdoar: há o perdão dos lábios e o perdão do coração. Muitas pessoas dizem do seu adversário: “Eu lhe perdoo”, enquanto, interiormente, guardam um secreto prazer pelo mal que lhe acontece, dizendo para si mesmas que foi bem-merecido. Quantos dizem: “Eu perdoo” e acrescentam “mas jamais me reconciliarei; não quero vê- lo pelo resto de minha vida!”. É esse o perdão segundo o Evangelho? Não. O verdadeiro perdão, o perdão cristão, é aquele que coloca um véu sobre o passado, é o único que terá importância, pois Deus não se contenta com as aparências: Ele sonda o fundo do coração e os mais secretos pensamentos e não se satisfaz com palavras e simples fingimentos. O esquecimento completo e absoluto das ofensas é próprio das grandes almas; o rancor é sempre um sinal de baixeza e de inferioridade. Não esqueçam que o verdadeiro perdão se reconhece muito mais pelos atos do que pelas palavras.

A compreensão

José, Espírito Protetor - Bordeaux, 1863

16. Espíritas, queremos lhes falar hoje da compreensão, esse sentimento tão doce, tão fraternal, que todo homem deve ter para com os seus irmãos, mas que bem poucos dele fazem uso. A compreensão não vê as faltas alheias, ou se as vê, evita comentá-las e divulgá-las. Pelo contrário, evita que se propaguem, e se a maldade os descobre, tem sempre uma desculpa para amenizá-las, ou melhor, uma desculpa plausível, séria, e não daquelas que, parecendo querer atenuar a falta, fazem-na sobressair com pérfida

astúcia. A compreensão nunca se ocupa com os maus atos alheios, a menos que seja para prestar um serviço, mas ainda assim com a cautela necessária para os atenuar o máximo possível. Não faz observações chocantes, não traz críticas nos lábios, mas somente conselhos, normalmente velados. Quando criticam, que dedução devem tirar de suas palavras? A de que vocês, que censuram, não praticaram o que reprovam, e que valem mais do que o culpado? Ah, homens! Quando julgarão os seus próprios corações, os seus próprios pensamentos e atos sem lhes preocuparem do que fazem os seus irmãos? Quando abrirão os seus olhos severos somente para vocês mesmos? Sejam, pois, severos com vocês, compreensivos para com os outros. Pensem Naquele que julga em última instância, que vê os pensamentos secretos de cada coração e, consequentemente, desculpa muitas vezes as faltas que condenam, ou condena as que desculpam, porque conhece o móvel de todas as ações, e vocês, que chamam tão alto: “Condenação!”, talvez tenham cometido faltas mais graves.

Sejam compreensivos, meus amigos, pois a compreensão atrai, acalma, corrige, enquanto o rigor desencoraja, afasta e irrita.

João, Bispo de Bordeaux, 1862

17. Sejam compreensivos com as faltas alheias, quaisquer que sejam. Julguem com rigor somente as suas próprias ações, e o Senhor usará de compreensão com vocês, como usaram para com os outros. Sustentem os fortes: encorajem-os à persistência; fortaleçam os fracos, mostrando-lhes a bondade de Deus, que leva em consideração o menor arrependimento. Mostrem a todos o anjo da arrependimento sincero, estendendo suas brancas asas sobre as faltas dos homens, e assim ocultando-as aos olhos daqueles que não podem ver o que é impuro. Compreendam a misericórdia infinita de seu Pai, e não esqueçam nunca de Lhe dizer em pensamento e, principalmente, pelas suas ações: “Perdoem as nossas ofensas, assim como perdoamos a quem nos têm ofendido”. Compreendam bem o valor destas sublimes palavras; a letra sozinha não é admirável, e sim o ensinamento que ela carrega. Que solicitam ao Senhor ao Lhe pedir perdão? Apenas o esquecimento de suas faltas? Esquecimento que em nada resultaria, pois, se Deus se contentasse em esquecer as suas faltas, não lhes puniria, mas também não lhes recompensaria. A recompensa não pode ser o prêmio pelo bem que não se fez, e menos ainda pelo mal que se tenha feito, mesmo que esse mal fosse esquecido. Pedindo perdão para as suas transgressões, pedem o favor de sua graça, para não caírem de novo, e a força necessária para entrarem num caminho novo, caminho de submissão e de amor, no qual poderão acrescentar a reparação ao arrependimento. Quando perdoarem aos seus irmãos, não lhes contentem em estender o véu do esquecimento sobre as suas faltas. Esse véu é, muitas vezes, transparente aos seus olhos. Acrescentem o amor ao seu

perdão. Façam por eles o que peçam ao seu Pai celestial que faça por vocês. Substituí a raiva que mancha pelo amor que purifica. Preguem-a, pelo exemplo, essa caridade ativa e infatigável que Jesus lhes ensinou. Preguem-a como Ele mesmo o fez por todo o tempo em que viveu na Terra, visível aos olhos do corpo, e como ainda prega, sem cessar, depois que se fez visível somente aos olhos do Espírito. Sigam esse divino modelo, caminhem sobre as Suas pegadas e elas lhes conduzirão ao lugar de refúgio onde encontrarão o repouso após a luta. Como Ele, tomem a sua cruz e subi penosamente, mas com coragem, o seu calvário: ao final estará a glorificação.

Dufêtre, Bispo de Nevers - Bordeaux

18. Caros amigos, sejam severos com vocês mesmos e compreensivos com a fraqueza dos outros; essa é também uma forma de praticar a caridade, que bem poucas pessoas observam. Todos vocês têm más tendências a vencer, defeitos a corrigir, hábitos a modificar. Todos vocês têm um fardo mais ou menos pesado que aliviar, para subir ao cume da montanha do progresso. Por que, então, ser tão clarividentes quando se trata do próximo e tão cegos com vocês? Quando deixarão de observar, no olho de seu irmão, o cisco que o fere, sem perceber a grande viga que lhes cega e lhes faz caminhar de queda em queda? Acreditem em seus irmãos, os Espíritos. Todo homem, suficientemente orgulhoso para se acreditar superior, em virtudes e em méritos, aos seus irmãos encarnados, é sem bom senso e culpado, e Deus o castigará, no dia de Sua justiça. O verdadeiro caráter da caridade é a modéstia e a humildade, que consiste em ver apenas superficialmente os defeitos alheios, para procurar valorizar o que nele há de bom e virtuoso, pois se o coração humano é um abismo de corrupção, sempre há oculto, o germe de alguns bons sentimentos, centelhas vivas da essência espiritual. Espiritismo, doutrina consoladora e bendita, felizes os que te conhecem e que colocam em prática os salutares ensinamentos dos Espíritos do Senhor! Para eles, o caminho é claro, e ao longo da estrada podem ler estas palavras, que lhes indicam o meio de se chegar ao objetivo: caridade prática, caridade de coração, caridade para com o próximo e para consigo mesmo. Em resumo, caridade para com todos e amor a Deus acima de todas as coisas, pois o amor a Deus resume todos os deveres, e porque é impossível amá-Lo sem praticar a caridade, da qual o Pai faz uma lei para todas as Suas criaturas.

É permitido repreender os outros? Observar as

suas imperfeições e divulgar o mal alheio?

19. Não havendo quem seja perfeito, segue-se que ninguém tem o direito de repreender o seu próximo?

São Luís - Paris, 1860 Certamente, pois cada um de vocês deve trabalhar para o progresso de todos e, principalmente, daqueles cuja tutela lhes foi confiada, mas é preciso fazê-lo com moderação, com um objetivo útil e não como faz a maior parte do tempo, pelo prazer de denegrir. Neste último caso, a censura é uma maldade; no primeiro, é um dever que a caridade manda cumprir com todas as cautelas possíveis. A censura que se lança sobre os outros deve, ao mesmo tempo, ser endereçada também a nós mesmos, para sabermos se não a merecemos.

São Luís - Paris, 1860

20. É repreensível observar as imperfeições dos outros, quando disso não resultar proveito algum para eles, e mesmo que não as divulguemos? Tudo depende da intenção. Certamente que não é proibido ver o mal, quando o mal existe. Seria mesmo inconveniente ver por toda a parte o bem: essa ilusão prejudicaria o progresso. O erro está em fazer essa observação prejudicando o próximo, desacreditando-o, sem necessidade, diante da opinião pública. Seria também repreensível fazê-lo para comprazer-se com sentimentos maldosos e de satisfação por encontrar os defeitos alheios. É bem diferente quando, lançando um véu sobre o mal, para ocultá-lo do público, nos limitamos a observá-lo para dele obter proveito pessoal, ou seja, para estudá-lo e evitar o que censuramos nos outros. Essa observação, além disso, não é útil ao moralista? Como descreveria ele as extravagâncias da Humanidade se não estudasse os seus exemplos?

São Luís - Paris, 1860

21. Há casos nos quais seja útil mostrar o mal alheio? Essa questão é muito delicada, e é aqui que devemos apelar para a caridade bem-compreendida. Se as imperfeições de uma pessoa prejudicam apenas a ela mesma, não há jamais utilidade em divulgá-las. Mas se elas podem prejudicar a outros, é preciso preferir o interesse da maioria ao de uma só pessoa. Segundo as circunstâncias, desmascarar a falsidade e a falsidade pode ser um dever, pois é melhor que um só homem caia do que muitos serem enganados e se tornarem suas vítimas. Em caso semelhante, é preciso balancear as vantagens e os inconvenientes.