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Capítulo 8 de 28 · linguagem simples

Bem-aventurados os puros de coração

Simplicidade, pureza, escândalos e cuidado com os pensamentos.
Seu progresso fica salvo somente neste aparelho.

Deixem vir a mim os pequeninos - Pecar por pensamento. Adultério

- Verdadeira pureza e mãos não lavadas - Escândalos: se sua mão é motivo de escândalo, cortai-a - Instruções dos Espíritos: Deixem vir a mim os pequeninos - Bem- aventurados os que têm os olhos fechados.

Deixem vir a mim os pequeninos

1. “Bem-aventurados os puros de coração, porque eles verão a Deus.” (Mateus, V:8)

2. “Então Lhe apresentaram umas crianças para que as tocasse e, como Seus discípulos repelissem com palavras rudes aqueles que apresentavam-nas, Jesus, vendo-os, aborreceu-se e disse-lhes: Deixem vir a mim os pequeninos, e não os impeçam, pois o Reino dos Céus é para aqueles que se assemelham. Eu lhes digo, na verdade, que quem não receber o Reino de Deus como uma criança, nele não entrará. E abraçando-as, Ele as abençoou, impondo-lhes as

mãos.” (Marcos, X:13-16)

3. A pureza do coração é inseparável da simplicidade e da humildade. Exclui todo pensamento de egoísmo e de orgulho. Por isso Jesus toma a infância como símbolo dessa pureza, como Ele a tomou também por símbolo de humildade. Esta comparação poderia não parecer justa, se considerarmos que o Espírito da criança pode ser muito antigo, e trazer, ao renascer para a vida material, imperfeições das quais não se despojou em suas existências precedentes. Somente o Espírito que chegou à perfeição poderia dar-nos o exemplo da verdadeira pureza. Mesmo assim, ela é exata do ponto de vista da vida presente, pois a criança, não tendo ainda podido manifestar nenhuma tendência perversa, oferece-nos a imagem de inocência e de candura. Assim, Jesus não diz de maneira absoluta que o Reino de Deus é para elas, mas para aqueles que a elas se

assemelham.

4. No entanto, se o Espírito da criança já viveu, por que não se apresenta, desde o nascimento, como realmente é? Tudo é sábio nas obras de Deus. A criança tem necessidade de cuidados que apenas o carinho materno pode lhe proporcionar, e este carinho aumenta, diante da fragilidade e da ingenuidade da criança. Para a mãe, seu filho é sempre um anjo, e é preciso que assim seja, para cativar-lhe a cuidado. Ela não teria podido ter para com ele o mesmo cuidado se, em vez da graciosa ingenuidade, tivesse encontrado na criança, sob os traços infantis, um caráter maduro e as ideias de um adulto. E ainda menos, se conhecesse o seu passado. Foi preciso, além disso, que a atividade do princípio inteligente fosse proporcional à fragilidade do corpo, que não

resistiria a uma atividade excessiva do Espírito, como podemos observar em crianças precoces. É por isto que, se aproximando a encarnação, o Espírito, entrando em estado de perturbação, perde pouco a pouco a consciência de si mesmo. Ele permanece, durante um certo período, numa espécie de sono, durante o qual todas as suas faculdades permanecem em estado latente. Esse estado transitório é necessário para dar ao Espírito um novo ponto de partida e lhe fazer esquecer, em sua nova existência terrena, as coisas que poderiam confundi-lo. Seu passado, porém, reage sobre ele, que renasce para uma vida maior, moral e intelectualmente mais forte, sustentado e secundado pela intuição que conserva da experiência adquirida.

A partir do nascimento, suas ideias retomam gradualmente o seu desenvolvimento, juntamente com o crescimento do corpo. Assim, pode-se dizer que, durante os primeiros anos, o Espírito é verdadeiramente criança, pois as ideias que formam a base de seu caráter estão ainda adormecidas. Durante o tempo em que os seus instintos permanecem latentes, ela é mais dócil e, exatamente por isso, mais acessível às impressões que podem modificar a sua natureza e fazê-la progredir, o que torna mais fácil a tarefa imposta aos pais. O Espírito reveste, portanto, por algum tempo, a roupagem da inocência. E Jesus está certo quando, apesar da anterioridade da alma, toma a criança por imagem de pureza e simplicidade.

Pecar por pensamento. Adultério

5. “Aprenderam o que foi dito aos antigos: Não cometerão adultério. Mas Eu, porém, lhes digo que qualquer um que tiver olhado uma mulher, cobiçando-a, já cometeu adultério com

ela em seu coração.” (Mateus, V:27-28)

6. A palavra adultério não deve ser entendida, nesse caso, exclusivamente no seu sentido próprio, mas num sentido mais amplo. Jesus a empregou frequentemente para designar o mal, o pecado, e todo mau pensamento, como, por exemplo, na passagem: “Porque qualquer um que se envergonhar de mim e de minhas palavras - nesta geração adúltera e pecadora - o Filho do Homem dele também se envergonhará, quando vier acompanhado dos santos anjos na glória de Seu Pai.” (Marcos, VIII:38) A verdadeira pureza não está apenas nas atitudes, está também no pensamento, pois aquele que tem o coração puro não pensa no mal. Foi isso que Jesus quis dizer, quando condena o pecado, mesmo em pensamento, pois é um sinal de

imperfeição.

7. Esse princípio traz, naturalmente, esta questão: Sofreremos as consequências de um mau pensamento não posto em prática? Há uma grande distinção a ser feita aqui. À medida que a alma, comprometida no mau caminho, avança na vida espiritual, vai se esclarecendo e se despoja pouco a pouco de suas imperfeições, segundo a maior ou menor boa vontade que emprega, por causa de seu livre- -arbítrio. Todo mau

pensamento é, por consequência, o resultado da imperfeição da alma. Mas, segundo o desejo que ela tiver em se purificar, esse mau pensamento se torna para ela um motivo de progresso, pois o repele com determinação. É o indício de uma mancha que ela se esforça por apagar. Ela não cederá à tentação de satisfazer um mau desejo - se a ocasião se apresentar - e, após haver resistido, se sentirá mais forte e feliz pela sua vitória. A alma que, ao contrário, não tomou boas resoluções busca a ocasião de praticar o mau ato, e se não fizer, não será por sua vontade, mas pela falta de oportunidade, portanto, é tão culpada como se o tivesse cometido. Em resumo: para a pessoa que nem ao menos concebe a ideia do mal, o progresso já está realizado; para aquele que ainda tem esse pensamento, mas o repele, está em vias de realizá-lo; para aquele, enfim, que tem esse pensamento e nele se satisfaz, o mal ainda mostra toda a sua soberania. Num, o trabalho está feito; no outro, está por fazer. Deus, que é justo, leva em consideração todas essas variações, na responsabilidade dos atos e dos pensamentos do homem.

Verdadeira pureza e mãos não lavadas

8. “Então, os escribas e fariseus que tinham vindo de Jerusalém se aproximaram de Jesus, dizendo: Por que seus discípulos violam a tradição dos antigos? Eles não lavam as mãos ao se alimentar. Mas Jesus lhes respondeu: Por que vocês mesmos transgredis o mandamento de Deus, pela sua tradição? Porque Deus disse: Honrem a seu pai e a sua mãe, e esse outro: Que aquele que disser palavras ultrajantes a seu pai ou a sua mãe seja punido com a morte. Mas vocês dizem: Qualquer um que disser a seu pai ou a sua mãe: Toda a oferta que faço a Deus te aproveitará a você, terá satisfeito a lei, pois é certo que ele não honrará a seu pai ou a sua mãe. Desta maneira, tornaram inútil o mandamento de Deus, pela sua tradição. Pessoas falsas! Profetizou bem Isaías, quando diz: Esse povo honra-me com os lábios, mas seu coração está longe de mim. É em vão que eles me honram, ensinando as doutrinas e as leis que vêm dos homens. Depois, tendo chamado o povo, lhes disse: Não é o que entra pela boca o que torna imundo o homem, mas o que sai da boca do homem. Então, Seus discípulos se aproximaram Dele e Lhe disseram: Sabe que os fariseus, tendo ouvido o que acabas de falar, ficaram escandalizados? Mas Ele respondeu: Toda planta que o meu Pai não plantou será arrancada pela raiz. Deixem-os; são cegos conduzindo cegos. Se um cego conduz outro, caem ambos no barranco. E Pedro, tomando a palavra, disse-Lhe: Explica-nos essa parábola. Jesus, porém, disse: Até vocês estão ainda sem entender? Ainda não compreendem que tudo o que entra pela boca desce para o ventre e é lançado fora? Mas o que sai do coração, isso contamina o homem. O que sai da boca parte do coração, e é isso o que torna o homem imundo: é do coração que partem os maus pensamentos, os homicídios, os adultérios, as fornicações, os furtos, os falsos testemunhos, as blasfêmias e as calúnias. São essas as coisas

que tornam o homem imundo, e não o comer sem lavar as mãos.” (Mateus, XV:20)

9. “Enquanto Ele falava, um fariseu o convidou para jantar em sua casa e Jesus, tendo ido até lá, sentou-se à mesa. O fariseu começou a pensar: Por que Ele não lavou as mãos antes do jantar? Mas o Senhor lhe disse: Fariseu, vocês têm enorme cuidado em limpar o que está por

fora do copo e do prato, mas o interior de seu coração está cheio de rapina e maldade. Sem bom senso! Aquele que fez o que está de fora não fez também o que está por dentro?” (Lucas,

XI:37-40)

10. Os judeus haviam negligenciado os verdadeiros mandamentos de Deus, ligando-se à prática das leis estabelecidas pelos homens, e que os rígidos observadores faziam casos de consciência. O fundo, tão simples, tinha desaparecido sob a complicação da forma. Como estavam mais preocupados em observar os atos exteriores do que em que modificar moralmente, em lavar as mãos mais do que em limpar seu coração, os homens enganaram-se a si mesmos, acreditando-se quites com a justiça de Deus, por se conformarem com suas práticas, e continuavam como eram, sem se modificar, pois lhes ensinavam que Deus nada lhes cobraria. Por isso o profeta dizia: “É em vão que esse povo me honra com os lábios, ensinando máximas e mandamentos dos homens”. Assim foi com a doutrina moral do Cristo, que acabou sendo colocada em segundo plano, o que fez assim que muitos cristãos - a exemplo dos antigos judeus - acreditassem que sua salvação estaria mais assegurada pelas práticas exteriores do que pelas da moral. É a esses acréscimos, que os homens fizeram na lei de Deus, que Jesus se refere, quando disse: “Toda a planta que o meu Pai não plantou será arrancada pela raiz”. A finalidade da religião é conduzir o homem a Deus. Mas o homem não chegará a Deus, enquanto não se fizer perfeito, portanto, toda religião que não torna o homem melhor não atende a esta finalidade. A religião na qual se crê poder apoiar-se para fazer o mal, ou é falsa ou foi falseada em seu princípio. Esse é o resultado a que chegam todas aquelas em que a forma supera o fundo. A crença na efeito dos símbolos exteriores é nula, se ela não impede assassinatos, adultérios, espoliações, calúnias, e prejudica o seu próximo. Ela cria supersticiosos, pessoas falsas e fanáticos, mas não homens de bem. Portanto, não basta ter as aparências da pureza. É preciso, antes de tudo, ter pureza de coração.

Escândalos: se sua mão é motivo de

escândalo, cortai-a

11. “Se alguém escandalizar um deram pequeninos, que creem em mim, melhor lhe fora que se lhe pendurasse ao pescoço uma mó de atafona1, e o lançasse ao fundo do mar. Ai do mundo por causa dos escândalos, pois é preciso que eles aconteçam, mais ai do homem que o ocasionar. Se a sua mão ou o seu pé é motivo de escândalo, cortai-os e lancem-os bem longe de ti. É melhor que entrem na vida tendo apenas um dos membros do que tendo ambos e serem lançado no fogo eterno. E se o seu olho é motivo de escândalo, tirem-o e lancem-o longe de ti; é melhor que entres na vida sem um olho do que, tendo dois, serem lançado ao fogo do inferno. Tenham cuidado para não desprezar nenhum desses pequeninos. Eu lhes declaro que, no Céu, Seus anjos veem a face de meu Pai, pois o Filho do Homem veio salvar aquele que estava perdido.” (Mateus, XVIII:6-11;

V:29-30)

fazer farinha. (N. do E.)

12. No sentido comum, escândalo significa toda ação que choca a moral ou os bons costumes, de maneira ostensiva. O escândalo não está exatamente na ação, mas nas repercussões que ela pode ocasionar. A palavra escândalo implica sempre a ideia de um certo tumulto. Muitas pessoas evitam o escândalo porque o seu orgulho sofreria com isso, e a sua consideração em meio aos homens diminuiria. Contanto que suas maldades sejam ignoradas, isso lhes basta e suas consciências ficam tranquilas. Essas são, segundo as palavras de Jesus, “sepulcros brancos por fora, mas cheios de podridão por dentro; vasos limpos por fora, mas imundos por dentro”. No sentido evangélico, o conceito da palavra escândalo - tão frequentemente empregada - é muito mais amplo. Seria por isso que nós não o compreendemos em alguns casos? Escândalo não é somente o que choca a consciência alheia, mas tudo o que resulta dos vícios e das imperfeições humanas, toda má ação de indivíduo para indivíduo, com ou sem repercussões. O escândalo, nesse caso,

é o resultado efetivo do mal moral.

13. “É preciso que haja escândalo no mundo”, disse Jesus, porque os homens, imperfeitos na Terra, têm inclinações para o mal, e porque as árvores ruins dão maus frutos. É preciso entender por essas palavras, que o mal é consequência da imperfeição humana, e não que

eles tenham a obrigação de praticá-lo.

14. “É necessário que o escândalo aconteça”, porque os homens, estando em expiação na Terra, punem a si mesmos pelo contato com os seus próprios vícios - dos quais são as primeiras vítimas - e cujos inconvenientes acabam por compreender. Quando estiverem fartos de sofrer com o mal, procurarão o remédio no bem. A reação desses vícios serve, algumas vezes, de castigo para uns e de provas para outros. É dessa maneira que Deus tira o

bem do próprio mal, e que os homens aproveitam as coisas más ou desagradáveis.

15. Sendo assim, dir-se-á que o mal é necessário e durará sempre, pois, se viesse a desaparecer, Deus estaria privado de um poderoso meio de castigar os culpados: portanto, é inútil procurar melhorar os homens. Mas, se não houvesse culpados, não haveria necessidade de castigos. Suponhamos a Humanidade transformada numa comunidade de homens de bem. Ninguém procuraria fazer mal ao próximo, e todos seriam felizes, porque seriam bons. Esse é o estado dos mundos avançados - de onde o mal foi excluído - e será o da Terra, quando houver progredido suficientemente. Mas, enquanto alguns mundos avançam, outros se formam, povoados por Espíritos primitivos, e que servem ainda de morada, de exílio e de local de expiação para os Espíritos

imperfeitos, rebeldes, insistentes no mal, rejeitados pelos mundos que se tornaram

felizes.

16. “Mas ai daquele que ocasionar o escândalo”: quer dizer que o mal sendo sempre o mal, os homens que tiveram seus maus instintos, embora sem o saber, utilizados por Deus como instrumento para a justiça divina, nem por isso deixaram de fazer o mal e devem ser punidos. É assim, por exemplo, que um filho ingrato é uma punição ou uma prova para o pai que o suporta, pois esse pai talvez tenha sido, por sua vez, um mau filho - e sofre agora a pena de talião. Mas isso não desculpa o filho e ele deverá ser castigado, por sua vez, por seus

próprios filhos ou de uma outra maneira.

17. “Se a sua mão é motivo de escândalo, corta-a”: é uma metáfora enérgica, que seria absurdo levar ao pé da letra, e que significa simplesmente que é preciso destruirmos em nós todas as causas do escândalo, ou seja, do mal. É necessário arrancar do coração todo sentimento impuro e toda tendência viciosa. Quer dizer ainda que seria melhor ao homem ter a mão cortada do que ser ela o instrumento de uma má ação; melhor ser privado da visão do que ter os olhos servindo para maus pensamentos. Jesus nada disse de absurdo, para aquele que percebe o sentido simbólico e profundo de Suas palavras; mas muitas coisas não podem ser compreendidas, sem a chave oferecida pelo Espiritismo.

Instruções dos Espíritos

Deixem vir a mim os pequeninos

João, o Evangelista - Paris, 1863

18. Disse o Cristo: “Deixem vir a mim as criancinhas”. Essas palavras, tão profundas em sua simplicidade, não apelam apenas às crianças, mas àqueles que gravitam nos círculos inferiores onde a desgraça ignora a esperança. Jesus chamava a si a infância espiritual da criatura formada: os fracos, os escravos, os viciosos. Ele nada podia ensinar à infância física, presa à matéria, submissa ao peso dos instintos e ainda não integrada à ordem superior da razão e da vontade, exercida em torno dela e em seu benefício. Jesus queria que os homens viessem a Ele com a confiança desses pequenos seres de passos vacilantes, cujo apelo conquistaria o coração das mulheres, que são todas mães. Ele submetia assim as almas à Sua doce e misteriosa autoridade. Ele foi a flama que clareou as trevas, o clarim matinal que tocou a alvorada. Ele foi o iniciador do Espiritismo que deve, por sua vez, chamar a si - não as criancinhas -, mas os homens de boa vontade. A ação viril está iniciada: não se trata de acreditar instintivamente e de obedecer automaticamente. É preciso que o homem siga a lei inteligente, que lhe revela a sua universalidade. Meus bem-amados, chegou o tempo no qual os erros explicados se transformarão em verdades. Nós lhes ensinaremos o sentido exato das parábolas e mostraremos a forte correlação que liga o que foi ao que é. Na verdade, Eu lhes digo: a

manifestação espírita se eleva no horizonte e aqui está o seu enviado, que vai resplandecer como o sol sobre o cume dos montes.

Um Espírito Protetor - Bordeaux, 1863

19. Deixem vir a mim os pequeninos, pois tenho o alimento que fortalece os fracos. Deixem vir a mim aqueles que, tímidos e débeis, têm necessidade de amparo e consolo. Deixem vir a mim os ignorantes, para que Eu os esclareça; deixem vir a mim todos aqueles que sofrem, a multidão dos que sofrem e dos infelizes, e Eu lhes darei o grande remédio para amenizar os males da vida, revelando-lhes o segredo da cura de suas feridas! Qual é, meus amigos, esse bálsamo soberano, possuidor da virtude por excelência, esse bálsamo que se aplica sobre todas as chagas do coração e as cura? É o amor, é a caridade! Se tiverem esse fogo divino, o que temerão? Dirão em todos os instantes de suas vidas: Meu Pai, que a Sua vontade seja feita e não a minha; se quiser testar-me pela dor e pelas dificuldades, bendito sejas, pois é para o meu bem - eu o sei - que a sua mão pesa sobre mim. Se te convires, Senhor, apiedar-te de sua frágil criatura, de dar-lhe alegrias ao coração, bendito sejas também! Mas faze que o amor divino não se amorteça na sua alma e que incessantemente suba aos Seus pés a sua prece de reconhecimento. Se tiverem amor, têm tudo o que podem desejar na Terra. Têm a pérola sublime, que nem mesmo as mais diversas circunstâncias, nem a maldade daqueles que lhes odeiam e perseguem, poderão lhes arrebatar. Se tiverem amor, terão colocado o seu tesouro onde nem as traças nem a ferrugem o devoram e verão desaparecer de suas almas tudo o que lhe possa manchar a pureza. Sentirão o fardo da matéria diminuir, dia a dia, e como pássaro que plana nos ares e não se lembra da terra, subirão incessantemente, subirão sempre, até que a sua alma, inebriada, possa se impregnar de seu elemento vital, dentro do Senhor.

Bem-aventurados os que têm os olhos fechados

Vianney, Cura d’Ars - Paris, 18632

20. Meus bons amigos, por que me chamaram? Para que eu imponha as mãos sobre a pobre sofredora que aqui está e curá-la? Que sofrimento, bom Deus! Perdeu a vista e as trevas se fizeram para ela. Pobre filha! Que ore e espere, eu não sei fazer milagres sem a vontade de Deus. Todas as curas que eu pude obter, e que conhecem, não as atribuam senão Àquele que é o Pai de todos nós. Em suas sofrimentos, olhem sempre para o céu e digam, do fundo de seus corações: Meu Pai, curai-me, mas façam que minha alma enferma seja curada antes das moléstias de meu corpo; que a minha carne seja castigada, se preciso for, para que a minha alma se eleve até vocês com a brancura que possuía quando a criaram. Depois dessa oração, meus bons amigos, que o bom Deus sempre

ouvirá, a força e a coragem lhes serão dadas, e talvez também a cura que temerosamente pediram, como recompensa por sua desapego pessoal.

Esta comunicação foi dada a respeito de uma pessoa cega, para a qual havia sido evocado o Espírito

de J. B. Vianney, Cura d’Ars. (Nota de Allan Kardec.)

Mas desde que eu aqui me encontro, numa reunião que trata, sobretudo, de estudos, eu lhes direi que aqueles que estão privados da visão deveriam considerar-se como os bem-aventurados da expiação. Lembrem-se que o Cristo disse que seria necessário arrancar o seu olho, se ele fosse mau, e que melhor seria se ele fosse lançado ao fogo do que ser a causa da sua perdição. Infelizmente, quantos existem na Terra que maldirão um dia, nas trevas, por terem visto a luz! Ah, sim! Pois são felizes os que, na expiação, estão sem visão! Seus olhos não serão motivo de escândalo e de queda, e eles podem viver inteiramente a vida espiritual, podem ver mais do que vocês que têm boa visão. Quando Deus me permite abrir as pálpebras de algum desses pobres sofredores e devolver-lhes à luz, eu digo a mim mesmo: Alma querida, por que não conheces todas as delícias do Espírito, que vive de reflexão profunda e de amor? Você não pedirias para ver essas imagens menos puras e menos suaves, que aquelas que pode entrever em sua cegueira. Ah, sim, bem-aventurado o cego que quer viver com Deus! Mais feliz do que vocês que estão aqui, ele sente a felicidade, ele a toca, vê as almas e pode lançar-se com elas nas esferas espirituais, que nem mesmo os predestinados da sua Terra conseguem ver. O olho aberto está sempre pronto a fazer sucumbir a alma; o olho fechado, ao contrário, está sempre pronto a fazê-la subir até Deus. Acreditem-me, meus bons e caros amigos, a cegueira dos olhos é, muitas vezes, a verdadeira luz do coração, enquanto que a visão é, frequentemente, o anjo tenebroso que conduz à morte. E agora, algumas palavras para ti, minha pobre sofredora: espera e tem coragem! Se eu te dissesse: Minha filha, seus olhos vão abrir-se, como ficarias alegre! Mas quem sabe se essa alegria não te faria perder? Tem confiança no bom Deus que fez a felicidade e permite a tristeza! Farei tudo o que for permitido para ti, mas, por sua vez, ora e, principalmente, reflita no que acabo de te dizer. Antes que eu me afaste, todos vocês que estão aqui, recebam a minha

bênção.

21. Nota: Quando umo sofrimento não é consequência dos atos da vida presente, é preciso buscar a sua causa numa vida anterior. O que chamamos de caprichos do destino não é outra coisa que os efeitos da justiça de Deus. O Pai não inflige punições arbitrárias, pois quer que entre a falta e a pena haja correlação. Se, em Sua bondade, lança um véu

sobre os nossos atos passados, nos mostra também o caminho, dizendo: “Quem matou pela espada morrerá pela espada”. Palavras que podem ser traduzidas assim: “Nós somos sempre punidos pelo que fizemos de errado”. Se, então, alguém é afligido com a perda da visão, é porque a visão para ele foi causa de queda. Talvez tenha ele também causado a perda da visão de um outro; talvez alguém tenha ficado cego por excesso de trabalho que lhe foi imposto, ou em consequência de maus-tratos, por falta de cuidados etc., e, então, ele sofre agora a pena de talião. Ele mesmo, no seu arrependimento, pode ter escolhido essa expiação, aplicando a si próprio estas palavras de Jesus: “Se o seu olho for motivo de escândalo, arrancai-o3”.