Capítulo 21 de 28 · linguagem simples
Haverá falsos cristos e falsos profetas
Discernimento: conhecer a árvore pelos seus frutos.Conhece-se a árvore pelos frutos - Missão dos profetas - Acontecimentos extraordinários dos falsos profetas - Não acreditem em todos os Espíritos - Instruções dos Espíritos: Os falsos profetas - Características do verdadeiro profeta - Os falsos profetas da erraticidade - Jeremias e os falsos profetas.
Conhece-se a árvore pelos frutos
1. “Não é boa a árvore que dá maus frutos, nem má árvore a que dá bons frutos; pois cada árvore é conhecida pelo seu próprio fruto. Não se colhem figos junto aos espinheiros e não se vindimam uvas dos espinhos. O homem de bem tira o bem do bom tesouro de seu coração, e o homem mau tira a maldade do mau tesouro de seu coração, pois a boca fala do que está
cheio o coração.” (Lucas, VI:43-45)
2. “Protejam-se dos falsos profetas, que vêm até vocês vestidos como ovelhas e que, por dentro, são lobos usurpadores. Vocês os conhecerão pelos frutos. Pode-se colher uvas junto aos espinhos ou figos dos espinhos? Assim, toda a árvore que é boa produz bons frutos e toda a árvore má dá maus frutos. Não pode a árvore boa dar maus frutos, nem a árvore má dar bons frutos. Toda árvore que não produzir bons frutos será cortada e lançada ao fogo. Vocês
os conhecerão, pois, pelos seus frutos.” (Mateus, VII:15-20)
3. “E, respondendo, Jesus lhes disse: Vejam, não lhes engane alguém, porque muitos virão em meu nome, dizendo: ‘Eu sou o Cristo’; e assim seduzirão a muitos.
E levantar-se-ão muitos falsos profetas, e enganarão a muitos. E porque, multiplicar-se-á a injustiça, a caridade de muitos se resfriará. Mas será salvo aquele que persistir até o fim. Então, se alguém lhes disser: O Cristo está aqui, ou lá, não lhe deis crédito, pois virão falsos Cristos e falsos profetas que farão grandes acontecimentos extraordinários e maravilhas tais, que se fora possível, até os próprios eleitos se enganariam.” (Mateus, XXIV:4-5, 11-13 e 23-24; Marcos, XIII:5-6 e 21-22)
Missão dos Profetas
4. É comum atribuir-se aos profetas o dom de revelar o futuro, de maneira que as palavras profecia e predição se tornaram sinônimas. No sentido evangélico, a palavra profeta tem um significado mais amplo: diz-se de todo mensageiro de Deus, com a missão de instruir os homens e de lhes revelar as coisas ocultas, e os mistérios da vida espiritual. Um homem pode, então, ser profeta, sem fazer predições. Esta era a ideia dos judeus, no tempo de Jesus. É por isso que, ao ser levado diante do sumo sacerdote Caifás, os Escribas e os Anciãos, reunidos, Lhe cuspiram no rosto, o feriram a socos e bofetadas, dizendo: “Cristo, profetiza, e diga quem foi que te bateu”. Porém, alguns profetas tiveram a
premonição do futuro, seja por intuição ou por revelação ligado à Providência divina, para transmitirem advertências aos homens. Como estes eventos se realizaram, o dom de predizer o futuro foi visto como um dos atributos da qualidade de profeta.
Acontecimentos extraordinários dos falsos profetas
5. “Falsos Cristos e falsos profetas se levantarão, e farão grandes acontecimentos extraordinários e coisas surpreendentes, para seduzirem até mesmo os eleitos.” Estas palavras dão o verdadeiro sentido da palavra acontecimento extraordinário. No conceito teológico, os acontecimentos extraordinários e os milagres são fenômenos excepcionais, além das leis da Natureza. Estas leis, tendo sido estabelecidas exclusivamente por Deus, não há dúvida que podem ser derrogadas por Ele, mas o simples bom senso diz que Ele não pode ter concedido a seres inferiores e perversos um poder igual ao seu, e ainda menos o direito de desfazerem o que Ele fez. Jesus não pode ter consagrado tal princípio. Se acreditarmos, pois, que, de acordo com o sentido que se dá àquelas palavras, o Espírito do Mal tem o poder de realizar acontecimentos extraordinários tais, que enganariam até os eleitos, disso resultaria que, podendo fazer o que Deus faz, os acontecimentos extraordinários e milagres não seriam privilégio exclusivo dos mensageiros de Deus, e nada provam, já que nada distingue os milagres dos santos dos milagres dos demônios. É preciso, pois, buscarmos um sentido mais racional para aquelas palavras. Aos olhos do povo, todo fenômeno, cuja causa é desconhecida, passa por sobrenatural, miraculoso e maravilhoso. Uma vez conhecida a causa, reconhece-se que o fenômeno, por mais extraordinário que pareça, não é outra coisa além da aplicação de uma determinada lei natural. É assim que o círculo dos fatos sobrenaturais se restringe, à medida que se amplia o das leis científicas. Por muito tempo, os homens exploraram, em proveito de sua ambição, de seus interesses e de seu desejo de dominação, alguns conhecimentos que possuíam, para conseguirem o prestígio de um poder supostamente sobre-humano ou de uma pretensa missão divina. São esses os falsos Cristos e os falsos profetas. A difusão dos conhecimentos vem desacreditá-los. É por isto que o seu número diminui, à medida que os homens se esclarecem. O fato de operarem o que, do ponto de vista de algumas pessoas, parece acontecimento extraordinário, não é o sinal de uma missão divina, já que pode resultar de conhecimentos que qualquer um pode adquirir, ou de faculdades orgânicas especiais, que o mais indigno como o mais digno podem possuir. O verdadeiro profeta se reconhece por características mais sérias e, exclusivamente, de campo moral.
Não acreditem em todos os Espíritos
6. “Meus bem-amados, não acreditem em todos os Espíritos, mas verificai se os Espíritos são de Deus, porque são muitos os falsos profetas que se levantaram no mundo.” (João, Epístola
I, cap. IV:1)
7. Os fenômenos espíritas, longe de confirmarem os falsos Cristos e os falsos profetas - como alguns gostam de dizer - vêm, ao contrário, dar-lhes um último golpe. Não
soliciteis, ao Espiritismo, milagres, nem acontecimentos extraordinários, pois ele declara, formalmente, que não os produz. Assim como a Física, a Química, a Astronomia e a Geologia vieram revelar as leis do mundo material, ele vem revelar outras leis desconhecidas, que regem as relações do mundo material com o mundo espiritual e que, como as primeiras, pertencem à Natureza. Dando, assim, a explicação de uma certa ordem de fenômenos incompreendidos até o dia de hoje, ele destrói o que ainda restava do domínio do maravilhoso. Os que ficarem tentados a explorar estes fenômenos em benefício próprio, fazendo-se passar por mensageiros de Deus, não poderiam abusar por muito tempo da facilidade de acreditar sem avaliar alheia, e bem logo seriam desmascarados. Aliás, como já foi dito, esses fenômenos por si mesmos nada provam. A missão se prova por efeitos morais que nem todos podem produzir. Este é um dos resultados do desenvolvimento da ciência espírita, que, pesquisando a causa de alguns fenômenos, levanta o véu sobre muitos mistérios. Os que preferem a obscuridade à luz são os únicos interessados em combatê-la, mas a verdade é como o sol: dissipa as mais espessas brumas. O Espiritismo vem revelar uma outra categoria, bem mais perigosa, de falsos Cristos e falsos profetas, e que se encontram - não entre os homens - mas entre os desencarnados: a dos espíritos enganadores, pessoas falsas, orgulhosos e pseudossábios que, da Terra, passaram para a erraticidade e se disfarçam com nomes veneráveis, para através da máscara que usam, tornar aceitáveis suas ideias, muitas vezes, estranhas e absurdas. Antes que as relações mediúnicas fossem conhecidas, eles exerciam a sua ação de uma maneira mais ostensiva, pela inspiração, pela mediunidade inconsciente, auditiva ou de incorporação. O número daqueles que, em épocas diversas, mas principalmente nos últimos tempos, se fizeram passar por alguns dos antigos profetas, como o Cristo, como Maria, mãe de Jesus, e mesmo como Deus, é considerável. São João nos previne contra eles, quando adverte: “Meus bem-amados, não creiam em todos os Espíritos, mas experimentem se os Espíritos são de Deus, pois muitos falsos profetas surgiram no mundo”. O Espiritismo nos oferece meios de experimentá-los, indicando as características pelas quais se reconhecem os bons Espíritos, características sempre morais e jamais materiais. (Ver O Livro dos Médiuns, cap. 24 e seguintes). É, sobretudo, ao discernimento dos bons e maus Espíritos, que se pode, sobretudo, aplicar estas palavras de Jesus: “Reconhece-se a árvore pelo fruto; uma boa árvore não pode produzir maus frutos, e uma árvore má não pode produzir bons frutos”. Julgam-se os Espíritos pela qualidade de suas obras, como a árvore pela qualidade de seus frutos.
Instruções dos Espíritos
Os falsos profetas
Luís - Bordeaux, 1861
8. Se alguém lhes disser: “O Cristo está ali”, não O procurem. Ao contrário, ponde-se em guarda, pois os falsos profetas são numerosos. Não vedes as folhas da figueira que começam a embranquecer? Não vedes os numerosos rebentos esperando a época da floração? E o Cristo não lhes disse: “Reconhece-se a árvore pelos seus frutos?”. Se os frutos são amargos, considerais que a árvore é ruim. Mas se eles são doces e saudáveis, dizem: “Nada tão puro pode sair de um tronco mau”. É assim, meus irmãos, que devem julgar: são as obras que devem examinar. Se aqueles que se dizem revestidos do poder divino revelam todos os sinais de uma missão semelhante - ou seja - se eles possuem, no mais alto grau, as virtudes cristãs e eternas: o amor, a caridade, a compreensão e a bondade que concilia todos os corações; se, confirmando essas palavras a elas juntarem os atos, então, poderão dizer: Estes são realmente os mensageiros de Deus. Mas desconfiem das palavras melífluas, desconfiem dos escribas e fariseus, que oram nas praças públicas, vestidos com longas vestes. Desconfiem daqueles que pretendem ter o único monopólio da verdade! Não, não, o Cristo não está lá, pois aqueles que Ele envia, para propagar a Sua santa doutrina e regenerar o Seu povo, serão, a exemplo do Mestre, mansos e humildes de coração, acima de todas as coisas. Aqueles que devem, com seus exemplos e conselhos, salvar a Humanidade, que corre para a perdição e se desvia por caminhos tortuosos, serão, acima de tudo, inteiramente modestos e humildes. Todo aquele que revela um átomo de orgulho, fugi dele como da lepra contagiosa, que corrompe tudo o que toca. Lembrem-se de que cada criatura traz na fronte, e principalmente em seus atos, a marca de sua grandeza ou de sua decadência.
Vão, pois, meus bem-amados, caminhem sem vacilações, sem segundas intenções, na bendita caminhada que empreendestes. Vão, avançai sempre sem nenhum temor e afastem corajosamente tudo o que possa entravar a sua marcha rumo ao objetivo eterno. Viajores, não ficarão mais do que pouco tempo nas trevas e dores das provas, se seus corações se deixarem levar por esta doce doutrina, que vem revelar-se as leis eternas, satisfazendo todas as aspirações de sua alma quanto ao desconhecido. A partir de agora, podem corporificar esses silfos ligeiros que passam em seus sonhos, e que, tão passageiros, podiam apenas deleitar o seu espírito, mas nada diziam ao seu coração. Hoje, meus amados, a morte desapareceu, para dar lugar ao anjo radioso que conhecem, ao anjo do reencontro e da reunião! Agora, vocês que cumpristes a tarefa imposta pelo Criador, não têm mais nada a temer da Sua justiça, pois Ele é pai e perdoa sempre aos Seus filhos desgarrados, que clamam por misericórdia. Continuai, então, sem cessar! Que a sua divisa seja a do progresso contínuo em todas as coisas, até chegarem, enfim, a este termo feliz no qual lhes esperam, afinal, todos aqueles que lhes precederam.
Características do verdadeiro profeta
Erasto - Paris, 1862
9. Desconfiem dos falsos profetas. Esta recomendação é útil em todos os tempos, mas principalmente nos momentos de transição em que, como neste, se elabora uma transformação da Humanidade, pois, nesses momentos, uma multidão de ambiciosos e farsantes se colocam como reformadores e messias. É contra esses impostores que é preciso estar em guarda e é dever de todos os homens honestos desmascará-los. Perguntarão, sem dúvida, como se pode reconhecê-los, e aqui estão os seus sinais: Confia- se o comando de um exército somente a um general hábil e capaz de o dirigir. Credes, então, que Deus seja menos prudente do que os homens? Estão certos, que Ele confia as missões importantes somente àqueles que sabe serem capazes de cumpri-las, pois as grandes missões são fardos pesados, que esmagariam o homem demasiadamente fraco para carregá-las. Como em todas as coisas, o mestre deve saber disso mais do que o aluno. Para impulsionar a Humanidade, moral e intelectualmente, são necessários homens superiores em inteligência e moralidade! É por isso que são sempre os Espíritos mais avançados, os que já passaram por provas em outras existências, os que se encarnam para essas missões, pois se não forem superiores ao meio em que devem agir, sua ação será nula. Assim sendo, concluireis que o verdadeiro missionário de Deus deve justificar a sua missão pela sua superioridade, pelas suas virtudes, pela sua grandeza, pelos resultados e pela influência moralizadora de suas obras. Há outra questão: se ele estiver, pelo seu caráter, por suas virtudes, pela sua inteligência, abaixo do papel que se atribui, ou do personagem cujo nome utiliza, não passa de um farsante de baixo nível, que não sabe sequer imitar o seu modelo. Outra consideração a fazer é que a maior parte dos verdadeiros missionários de Deus ignoram que o sejam. Eles cumprem o que foram chamados a fazer pela força de seu próprio gênio, secundados pelo poder oculto que os inspira e os dirige, à sua revelia, mas sem que o tivessem premeditado. Em resumo, os verdadeiros profetas se revelam pelos seus atos e são descobertos pelos outros, enquanto os falsos profetas se apresentam por si mesmos como enviados de Deus. Os primeiros são humildes e modestos; os segundos, orgulhosos e cheios de si, falam com arrogância e como todos os mentirosos parecem sempre receosos de não serem aceitos. Estes impostores foram vistos passando-se por apóstolos do Cristo, outros pelo próprio Cristo, e, para vergonha da Humanidade, encontraram pessoas suficientemente crédulas para aceitarem os seus embustes. Uma observação bem simples, porém, bastaria para abrir os olhos aos mais cegos: se o Cristo reencarnasse na Terra, Ele o faria com todo o Seu poder e todas as Suas virtudes, a menos que se admita - o que seria absurdo - que Ele houvesse degenerado. Ora, da mesma forma que se tirássemos a Deus um único de Seus atributos, já não teríamos Deus, se tirarmos uma única virtude do Cristo, não mais O teríamos. Os
que se fazem passar pelo Cristo têm todas as Suas virtudes? Esta é a questão. Olhem, sondai os seus pensamentos e atos, e reconhecerão que lhes faltam sobretudo as qualidades distintivas do Cristo: a humildade e a caridade. Enquanto lhes sobram as que Ele não tinha: a apego excessivo ao dinheiro e o orgulho. Observem, além disso, que há, neste momento, e em diferentes países, vários pretensos Cristos, como há também numerosos e pretensos Elias, supostos São João ou São Pedro e que, necessariamente, não podem ser todos verdadeiros. Podem estar certos de que são pessoas que exploram a facilidade de acreditar sem avaliar e que acham cômodo viver à custa daqueles que os escutam. Desconfiem, portanto, dos falsos profetas, sobretudo numa época de renovação, pois muitos impostores se apresentarão como missionários de Deus. São os que buscam uma vaidosa satisfação na Terra, mas uma terrível justiça os aguarda, podem estar certos.
Os falsos profetas da erraticidade
Erasto, discípulo de São Paulo - Paris, 1862
10. Os falsos profetas não estão apenas entre os encarnados. Estão, também, e em número bem maior, entre os Espíritos orgulhosos que, sob semblantes de falso amor e caridade, semeiam a desunião e retardam a obra de emancipação da Humanidade, impingindo-lhe os seus sistemas absurdos, por meio dos médiuns que os servem. E para melhor fascinar aqueles que desejam enganar, para dar maior importância às suas teorias, eles se disfarçam inescrupulosamente com nomes que os homens somente pronunciam com respeito. São eles que semeiam os germes da discórdia entre os grupos, que os fazem isolar-se uns dos outros e a se olharem com prevenções. Apenas isso seria o suficiente para os desmascarar, pois, assim agindo, eles mesmos desmentem o que pretendem ser. Cegos, portanto, são os homens que se deixam enganar de maneira tão grosseira. Mas há ainda muitos outros meios de os reconhecer. Os Espíritos da ordem ao qual eles dizem pertencer devem ser não somente muito bons, mas, além disso, eminentemente racionais. Passem os seus sistemas pelo crivo da razão e do bom senso, e verão o que restará. Então concordareis comigo em que, todas as vezes que um Espírito indicar, como remédio aos males da Humanidade, ou como meios de se realizar a sua transformação, medidas utópicas e impraticáveis, pueris e ridículas; ou quando formular um sistema que contradiz as mais comuns noções científicas, não passará de um Espírito ignorante e mentiroso.
Por outro lado, lembrem-se de que, se a verdade nem sempre é apreciada pelos indivíduos, sempre o é pelo bom senso das massas, e isso também é um critério. Se dois princípios se contradizem, terão a medida de seus valores intrínsecos, buscando aquele que tiver maior receptividade e simpatia. Seria ilógico, na verdade, admitir que uma
doutrina, que viesse diminuir o número de participantes, que fosse mais verdadeira que a outra, cujo número aumenta. Deus, querendo que a verdade chegue a todos, não a confina num círculo restrito, mas a faz surgir em diferentes pontos, para que a luz esteja ao lado das trevas por toda a parte. Repeli impiedosamente todos esses Espíritos que se manifestam como conselheiros exclusivos, pregando a divisão e o isolamento. São quase sempre Espíritos vaidosos e medíocres, que tentam obrigar-se a pessoas fracas e crédulas, prodigalizando-lhes louvores exagerados, para fasciná-las e mantê-las sob o seu domínio. São, geralmente, Espíritos sedentos de poder, que, tendo sido autoritários no lar ou na vida pública, quando vivos, querem ainda ter vítimas para tiranizar, depois de sua morte. Em geral, portanto, desconfiem das comunicações que se caracterizam por um caráter místico e pela extravagância, que prescrevem cerimônias e práticas estranhas. Sempre há, nesses casos, um motivo legítimo de desconfiança. Por outro lado, estejam certos de que, quando uma verdade deve ser revelada à Humanidade, ela é, por assim dizer, comunicada instantaneamente, para todos os grupos sérios, que possuem médiuns sérios, e não a este ou àquele, com exclusão de outros. Ninguém é médium perfeito, se estiver pessoa sob obsessão, e há obsessão evidente quando um médium está apto apenas a receber as comunicações de um determinado Espírito, por mais elevado que este pretenda ser. Consequentemente, todo médium e todo grupo que se acredita privilegiado pelas comunicações que somente eles podem receber, e que, por outro lado, estão sujeitos a práticas supersticiosas, estão, sem dúvida, sob uma obsessão bem caracterizada, principalmente quando o Espírito dominante se vangloria de um nome que todos, Espíritos e encarnados, devemos honrar e respeitar, não deixando que seja comprometido a todo instante.
É incontestável que, submetendo-se todas as comunicações espirituais ao crivo da razão e da lógica, será fácil afastar o absurdo e o erro. Um médium pode estar fascinado, um grupo pode ser enganado, mas o controle severo dos outros grupos, com o auxílio do conhecimento adquirido, e a elevada autoridade moral dos dirigentes de grupos, as comunicações dos principais médiuns, marcadas pelo cunho da lógica e da autenticidade dos Espíritos mais sérios, farão rapidamente desmascarar esses mensagens mentirosos e astuciosos, emanados de uma turba de Espíritos enganadores ou malfazejos. (Ver na Introdução, o parágrafo II: Controle universal dos ensinamentos dos Espíritos. Ver ainda O Livro dos Médiuns, Cap. XXIII, Da obsessão.)
Jeremias e os falsos profetas
11. “O Senhor dos exércitos diz: Não escuteis as palavras dos profetas, que lhes profetizam e lhes enganam; falam sobre as visões dos seus corações e não da boca do Senhor. Eles dizem aos que me blasfemam: O Senhor disse: Vocês terão a paz. E a todos aqueles que caminham
na corrupção de seus corações a disseram: Não virá sobre vocês o mal. Mas quem dentre eles assistiu ao conselho de Deus e viu e ouviu a sua palavra? Eu não enviava nenhum desses profetas e eles corriam; não lhes falava nada, e eles profetizavam como bem entendiam. Tenho ouvido o que esses profetas disseram, erroneamente, em meu nome: Eu sonhei, eu tenho sonhado. Até quando se achará isto no coração dos profetas que vaticinam a mentira e cujas profecias são apenas seduções do seu coração? Se este povo, ou um profeta, ou um sacerdote lhes interroga, dizendo: Qual é o fardo do Senhor? Vocês dirão: Vocês mesmos são o fardo e Eu lhes lançarei bem longe de mim, diz o Senhor.” (Jeremias,
XXIII:16-18; 21; 25-26 e 33) Luís, Espírito Protetor - Carlsruhe, 1861 É sobre esta passagem do profeta Jeremias que quero lhes entreter, meus amigos. Deus, falando pela sua boca, disse: “É a visão do coração que os faz falar”. Essas palavras indicam claramente que, já naquela época, os charlatães e os vaidosos abusavam do dom da profecia e o exploravam.
Eles abusavam, consequentemente, da fé simples e quase cega do povo, predizendo por dinheiro, coisas boas e agradáveis. Este tipo de embuste era muito comum entre os judeus, e é fácil compreender que o pobre povo, ignorante, estava impossibilitado de distinguir os bons dos maus, e era sempre mais ou menos enganado pelos impostores e fanáticos que passavam-se por profetas. Nada é mais significativo do que estas palavras: “Eu não enviei nenhum desses profetas, e eles corriam; não lhes falava nada, e eles profetizavam”. Mais além, ele diz: “Tenho ouvido estes profetas profetizando mentiras em meu nome, dizendo: Eu sonhei, eu tenho sonhado”. Ele indicava, desta maneira, um dos meios empregados para explorar a confiança do povo. A multidão, sempre crédula, não pensava em lhes contestar a veracidade dos sonhos ou das visões, porque achava tudo muito natural e convidava sempre os profetas a falarem. Depois das palavras do profeta, escutem os sábios conselhos do Apóstolo João, quando diz: “Não creiam em todos os Espíritos, mas experimentem se os Espíritos são de Deus”, pois, entre os invisíveis, há também os que se comprazem em enganar, quando encontram oportunidade. Estes enganados são, bem entendido, os médiuns que não tomam as precauções necessárias. Este é um dos maiores escolhos, contra o qual muitos acabam por chocar-se, principalmente quando são novatos no Espiritismo. É para eles uma prova, da qual só podem triunfar com muita prudência. Aprendam, pois, antes de tudo, a distinguir os bons dos maus Espíritos, para não lhes tornarem, vocês mesmos em falsos profetas.