Capítulo 13 de 28 · linguagem simples
Que a mão esquerda não saiba o que faz a direita
Caridade sem ostentação e ajuda verdadeira a quem precisa.Fazer o bem sem exibição - Os sofrimentos escondidos - O pequena oferta da viúva - Convidar os pobres e pessoas com limitações físicas. Ajudar sem esperar o retorno - Instruções dos Espíritos: A caridade material e a caridade moral - A ajuda ao próximo - A piedade - Os crianças sem pais - Boas ações pagas com a ingratidão - Ajuda ao próximo exclusiva.
Fazer o bem sem exibição
1. “Evitem fazer suas boas ações diante dos homens para não serem vistos, de outra forma, não receberão a recompensa de seu Pai, que está nos Céus. Quando, pois, derem ajuda material, não mandeis soar a trombeta diante de vocês, como fazem as pessoas falsas nas sinagogas e nas ruas, para serem homenageados pelos homens. Eu lhes digo, na verdade, que eles já receberam a sua recompensa. Mas, quando derem ajuda material, que a sua mão esquerda não saiba o que faz a sua direita; para que a sua ajuda material fique em segredo e
seu Pai, que vê o que se passa, lhes dará a recompensa.” (Mateus, VI:1-4)
2. “Tendo Jesus descido da montanha, uma multidão O seguiu e, juntamente com ela, um leproso veio até Ele e O adorou dizendo: Senhor, se quiser, pode me curar. Jesus, estendendo a mão o tocou e disse: Eu quero, sê limpo. E nesse instante a lepra foi curada. Então, Jesus disse: Não digas isso a ninguém, mas vai, mostra-te aos sacerdotes e faze a oferta que
ordenou Moisés, para que isso lhes sirva de testemunho.” (Mateus, VIII:1-4)
3. Fazer o bem sem exibição é um grande mérito; esconder a mão que dá é ainda mais meritório. É o sinal incontestável de uma grande superioridade moral, pois, para ver as coisas de uma forma mais elevada do que o comum, é preciso fazer abstração da vida presente e identificar-se com a vida após a morte. É preciso, numa palavra, colocar-se acima da Humanidade, para renunciar à satisfação do testemunho dos homens e esperar a aprovação de Deus. Aquele que preza a aprovação dos homens mais do que a de Deus prova que a vida presente vale mais para ele do que a vida após a morte ou, até mesmo, que ele não crê na vida após a morte. Se ele diz o contrário, age, no entanto, como se não acreditasse no que diz. Quantos há que só fazem um benefício, se o beneficiado o divulgar de forma ampla; que dão uma grande soma à luz do dia, mas que não dariam uma moeda sequer de forma discreta! É por isso que Jesus disse: “Os que fazem o bem com exibição já receberam a sua recompensa”. Na verdade, aquele que busca a sua glorificação sobre a Terra, pelo bem que faz, já se pagou a si mesmo. Deus não lhe deve nada; só lhe resta receber a punição pelo seu orgulho. “Que a mão esquerda não saiba o que faz a direita” é uma metáfora que caracteriza admiravelmente a ajuda ao próximo
modesta, mas se existe a modéstia real, há também a falsa modéstia, a simulação da modéstia. Há pessoas que escondem a mão, tendo o cuidado de deixar perceber o que fazem. Indigna paródia das máximas do Cristo! Se os benfeitores orgulhosos são depreciados entre os homens, muito mais o serão em relação a Deus! Esses receberam sua recompensa na Terra. Foram vistos, estão satisfeitos de terem sido vistos - é tudo o que terão. Qual será, então, a recompensa daquele que cobra do beneficiado os benefícios que a ele prestou, que lhe obriga testemunhos de reconhecimento, que lhe faz sentir a sua posição exaltando o preço dos sacrifícios que suportou por ele? Ah! Para esse não há nem mesmo as recompensas terrenas, pois não tem a grata satisfação de ouvir bendizerem o seu nome - um primeiro castigo para o seu orgulho. As lágrimas que seca, em benefício de sua vaidade, em vez de subirem aos Céus, recaem sobre o coração do quem sofre para feri-lo. O bem que faz não lhe traz proveito algum, já que o censura, pois toda boa ação reprovada é uma moeda alterada e sem valor. A ajuda ao próximo sem exibição tem duplo mérito: além da caridade material, é igualmente caridade moral, pois contorna a suscetibilidade do beneficiado, fazendo-o aceitar a boa ação sem que o seu orgulho pessoal sofra com isso e salvaguardando a sua dignidade humana, pois este aceitará um serviço, que não aceitaria como ajuda material. Ora, converter o serviço em ajuda material, pela maneira como fazemos, é humilhar quem o recebe, e há sempre orgulho e maldade em humilhar a alguém. A verdadeira caridade, ao contrário, é delicada e habilidosa para ocultar a boa ação e evitar até as menores possibilidades de ressentimento, pois todo choque moral aumenta o sofrimento provocado pela necessidade. Ela sabe encontrar palavras doces e gentis, que colocam o beneficiado à vontade em face do benfeitor, enquanto a caridade orgulhosa o humilha. O sublime da verdadeira generosidade está em saber o benfeitor inverter os papéis, encontrando um meio de parecer ele mesmo agradecido em relação àquele a quem presta o serviço. É isso o que querem dizer estas palavras: “Que a mão esquerda não saiba o que faz a direita”.
Os sofrimentos escondidos
4. Nas grandes calamidades, a caridade se manifesta, e veem-se generosas demonstrações com o intuito de reparar os desastres; mas, ao lado desses desastres gerais, há milhares de desastres particulares, que passam despercebidos, de pessoas que jazem sobre um leito de dor, sem se lamentarem. São esses as dificuldades discretos e ocultos, que a verdadeira generosidade sabe descobrir, sem esperar que venham pedir assistência. Quem é aquela senhora distinta, de trajes simples, acompanhada de uma jovem também vestida modestamente? Entra numa casa de mísera aparência, onde, sem dúvida, é conhecida, pois à porta é saudada com respeito. Onde vai ela? Sobe até um quarto humilde. Lá vive uma mãe de família, rodeada pelos filhos pequenos. À sua
chegada, a alegria brilha nos rostos enfraquecidos. É que ela vem acalmar todas as suas dores. Ela traz o necessário, acompanhado de doces e consoladoras palavras, que fazem aceitar a ajuda sem pressão, pois esses infortunados não são profissionais da mendicância. O pai está no hospital e, durante esse tempo, a mãe não pode suprir as necessidades. Graças a ela, essas pobres crianças não passarão frio, nem fome. Irão à escola suficientemente agasalhadas e o seio da mãe não secará para os menores. Se há um enfermo entre eles, nenhum cuidado material lhe faltará. De lá ela se encaminha ao hospital, para levar ao pai algum consolo e tranquilizá-lo quanto à família. Na esquina, um veículo a espera, verdadeiro depósito de tudo o que vai levar aos seus protegidos, por ela visitados constantemente. Não lhes pergunta pela crença nem pelas opiniões, pois, para ela, todos os homens são irmãos e filhos de Deus. Quando termina a sua visita, ela diz a si mesma: “Comecei bem o meu dia”. Qual é o seu nome? Onde mora? Ninguém o sabe. Para os infelizes, tem um nome que não revela a ninguém, mas é o anjo da consolação e, à noite, um cântico de bênçãos se eleve por ela ao Criador. Católicos, protestantes, judeus, todos a bendizem. Por que se veste de maneira tão simples? É que ela não quer insultar a miséria com o seu luxo. Por que se faz acompanhar de sua jovem filha? É que ela quer lhe ensinar como se deve praticar a caridade. Sua filha também quer praticá-la, mas sua mãe lhe diz: “O que pode dar, minha filha, já que nada tem de seu? Se eu te der algo para repassar aos outros, que mérito terá? Na verdade, eu é que farei a caridade e você receberás o mérito. Não é justo. Quando formos visitar os doentes, ajudar-me-ás a cuidar deles, pois dar-lhes cuidados é dar alguma coisa. Isso não te parece suficiente? Nada mais simples: aprende a fazer trabalhos úteis, e assim confeccionarás roupas para essas crianças, dessa maneira, você dará algo de seu”. É assim que essa mãe, verdadeiramente cristã, forma a sua filha na prática das virtudes ensinadas pelo Cristo. Ela é espírita? Pouco importa!
Para o meio em que vive, é a mulher do mundo, pois sua posição o exige, mas se ignora o que ela faz, pois não lhe importa outra aprovação que a de Deus e de sua própria consciência. Porém, um dia, uma circunstância imprevista conduz a ela uma de suas beneficiadas, para lhe oferecer trabalhos manuais. Ela a reconhece e quer abençoar a sua benfeitora. “Psiu!” - ela diz - “não o digas a ninguém”. Assim falava Jesus.
O pequena oferta da viúva
5. “E, estando Jesus assentado à frente de um gazofilácio1, observava de que maneira o povo nele jogava o dinheiro, e como os ricos lá colocavam muito. Vindo, porém, uma pobre viúva, lá colocou apenas duas pequenas moedas no valor de poucos centavos. Então, tendo Jesus chamado os Seus discípulos, disse-lhes: Eu lhes digo, na verdade, que essa pobre viúva deu
mais do que todos os outros que colocaram dinheiro no gazofilácio, pois todos deram de sua abundância, e ela deu de sua indigência, talvez tudo o que tinha, todo o seu sustento.” (Marcos, XII: 41-44; Lucas, XXI:1-4)
6. Muitas pessoas reclamam de não poder fazer todo o bem que gostariam, por falta de recursos financeiros, e quando desejam a fortuna, dizem, é para fazer dela um bom uso. A intenção é louvável, sem dúvida, e talvez muito sincera em alguns casos, mas o seria da parte de todos, assim completamente desinteressados? Não há quem, desejando beneficiar aos outros, se sentiria bem de começar a fazer por si mesmo, concedendo-se algumas satisfações a mais, um pouco do que é além do necessário que lhe falta, dando o restante aos pobres? Essa segunda intenção, dissimulada talvez, mas que encontrariam no fundo de seus corações, se o sondassem, anula o mérito da intenção, pois a verdadeira caridade pensa nos outros antes que em si mesmo. O sublime da caridade, nesse caso, seria buscar cada qual no seu próprio trabalho, pelo emprego de suas forças, de sua inteligência, de seu talento, os recursos que lhe faltam para realizar suas intenções generosas. Este seria o sacrifício mais agradável ao Senhor. Infelizmente, a maioria sonha com meios mais fáceis de enriquecer, rapidamente e sem sacrifícios, correndo atrás de ilusões, como descobertas de tesouros, uma chance aleatória favorável, o recebimento de heranças inesperadas etc. O que
dizer daqueles que esperam encontrar, para ajudá-lo nas buscas dessa natureza, auxiliares entre os Espíritos? Certamente eles não conhecem e nem compreendem o objetivo sagrado do Espiritismo, e ainda menos a missão dos Espíritos, a quem Deus permite comunicarem-se com os homens. Mas justamente por isso, são punidos pelas decepções. (O Livro dos Médiuns, no 294, 295.) Aqueles, cuja intenção é isenta de qualquer interesse pessoal, devem consolar-se com a impossibilidade de fazer todo o bem que gostariam, lembrando que o pequena oferta do pobre, que doa mesmo se privando, pesa mais na balança de Deus que o ouro do rico, que dá sem abrir mão de nada. A satisfação seria grande, sem dúvida, de poder socorrer largamente a indigência; mas, se isso é impossível, é preciso submeter-se e fazer o que se pode. Além disso, não é somente com o ouro que se podem enxugar as lágrimas, e devemos ficar parados só porque não o possuímos? Aquele que deseja sinceramente tornar-se útil aos seus irmãos encontra mil oportunidades para tanto, bastando procurar para encontrá-las. Se não for de uma maneira, será de outra, pois não há ninguém que, estando em pleno alegria de suas faculdades, não possa prestar algum serviço, dar um consolo, amenizar um
sofrimento físico ou moral, tomar uma providência útil. Na falta de dinheiro, cada um não tem o seu tempo, o seu repouso, dos quais pode oferecer um pouco? Isso também é a ajuda material do pobre, o pequena oferta da viúva.
Acolher quem precisa de ajuda
7. “E dizia também àquele que O convidou: Quando convidares alguém para o jantar ou a ceia, não convides nem seus amigos, nem seus irmãos, nem seus pais, nem seus vizinhos ricos, para que não suceda que também eles te convidem e que assim retribuam o que receberam de ti. Mas quando derem um festim, convida os pobres, os aleijados, os coxos e os cegos; e será bem-aventurado, pois eles não terão meios de te retribuir o convite; mas isso te
será recompensado no Reino de Deus.” (Lucas, XIV:12-15)
8. “Quando fizeres uma festa”, diz Jesus, “não convideis os seus amigos, mas os pobres e as pessoas com limitações físicas”. Estas palavras, absurdas, se as tomarmos ao pé da letra, são sublimes se nelas procurarmos o sentido.
Jesus não pode ter querido dizer que, em lugar de seus amigos, é preciso reunir à mesa os mendigos da rua. Sua linguagem era quase sempre figurada, e aos homens incapazes de compreender as nuanças delicadas do pensamento, seria preciso imagens fortes, produzindo o efeito de cores berrantes. O sentido de Seu pensamento se revela nestas palavras: “Será feliz pois eles não terão meios de te retribuir”; quer dizer que não se deve fazer o bem em vista de um retorno, mas pelo único prazer de fazê-lo. Para fazer uma comparação mais clara, Ele diz: Convida para a sua festa os pobres, pois sabe que aqueles nada poderão te retribuir. Por festa deve-se entender não a refeição propriamente dita, mas a participação na abundância que usufruis. Estas palavras podem, porém, também receber sua aplicação num sentido mais literal. Quantas pessoas não convidam para a mesa somente aqueles que lhes podem, como dizem, honrar ou convidá-los, por sua vez! Outros, ao contrário, encontram satisfação em receber os seus pais ou amigos que são menos felizes. Ora, quem não os tem entre os seus? É, algumas vezes, prestar-lhes um enorme serviço de forma discreta. Aqueles, sem recrutar os cegos e as pessoas com limitações físicas, praticam a máxima de Jesus, se o fazem por bondade, sem exibição, e se sabem disfarçar a boa ação por uma sincera cordialidade.
Instruções dos Espíritos
A caridade material e a caridade moral
Irmã Rosália - Paris, 1860
9. “Amemo-nos uns aos outros e façamos aos outros o que quereríamos que nos fizessem.” Toda a religião, toda a moral, se encerram nestes dois ensinamentos. Se eles fossem seguidos na Terra, seriam todos perfeitos. Não haveria ódios, ressentimentos - eu diria mais - não
haveria pobreza, pois, do que é além do necessário da mesa de cada rico, muitos pobres se alimentariam e vocês não veríeis mais, nos sombrios bairros em que morei durante a minha última encarnação, pobres mulheres levando consigo miseráveis filhos carentes de tudo. Ricos! Pensem um pouco nisso, ajudem o melhor possível os infelizes, deem, para que Deus lhes retribua um dia o bem que houverdes feito; para que encontreis, ao sair de seu envoltório terreno, um cortejo de Espíritos reconhecidos, que lhes receberão no limiar de um mundo mais feliz. Se pudessem saber a alegria que experimentei, reencontrando no além aqueles a quem pude beneficiar em minha última existência! Amem, pois, ao seu próximo, amem-o como a vocês mesmos, pois sabem, agora, esse infeliz que repelis é, talvez, um irmão, um pai, um amigo que afastais para longe. E, então, qual não será o seu desespero, ao reconhecê-lo no mundo dos Espíritos! Quero que compreendais bem o que pode ser a caridade moral, essa que todos podem praticar, que materialmente nada custa e, porém, é a mais difícil de se praticar. A caridade moral consiste em lhes suportarem uns aos outros, e é o que menos fazem nesse mundo inferior, em que estão momentaneamente encarnados. Há um grande mérito, acreditai-me, em saber calar para deixar falar um mais tolo do que vocês, e é também um gênero de caridade. Saber ser surdo quando uma palavra irônica escapar de uma boca habituada a escarnecer; não ver o sorriso desdenhoso com que lhes recebem as pessoas que, muitas vezes, erradamente, se julgam superiores a vocês, enquanto que, na vida espiritual - a única verdadeira - elas estão, muitas vezes, bem longe disso. Aí está um mérito, não de humildade, mas de caridade, pois não se incomodar com a faltas alheias é caridade moral. Mesmo assim, essa caridade não deve impedir que se pratique a outra; mas pensem sobretudo em não desprezar o seu semelhante. Lembrem-se de tudo o que já lhes disse: é preciso sempre recordar que no pobre repelido pode estar, talvez, um Espírito que lhes foi caro, e que se encontra, momentaneamente, numa posição inferior à sua. Eu revi um dos pobres de sua Terra a quem pude, felizmente, beneficiar algumas vezes, e a quem me cabe agora pedir ajuda, por minha vez. Lembrem-se de que Jesus disse que somos todos irmãos e pensem sempre nisso, antes de afastar o leproso ou o mendigo. Adeus, pensem naqueles que sofrem e orem.
Um Espírito Protetor - Lyon, 1860
10. Meus amigos, tenho ouvido muitos dentre vocês dizerem: Como posso fazer a caridade? Normalmente, não tenho nem o necessário! A caridade, meus amigos, se faz de muitas formas. Podem fazer a caridade em pensamentos, palavras e ações. Em pensamentos, orando pelos pobres abandonados, que morreram sem sequer terem visto a luz; uma prece do coração os alivia. Em palavras, dirigindo aos seus companheiros de todos os dias alguns bons conselhos. Digam aos homens amargurados pelo desespero, pelas dificuldades materiais, e que blasfemam contra o nome do Altíssimo: “Eu era como vocês; sofria, era infeliz, mas acreditei no Espiritismo e vejam, eu sou feliz agora”. Aos idosos que lhes disserem: “É inútil, estou no fim da vida, morrerei como vivi”, respondei que a justiça de Deus é igual para todos, “lembrem-se dos trabalhadores da última hora”.
Aos pequenos que, já viciados pelas más companhias, perdem-se pelos caminhos do mundo, prestes a sucumbir às más tentações, digam-lhes: “Deus lhes vê, meus queridos filhos”, e não temam repetir, frequentemente, essas doces palavras, que acabarão por germinar nas suas inteligências jovens e, em lugar de pequenos vagabundos, terão feito homens. Isso também é uma caridade.
Muitos dentre vocês dizem assim: “Nós somos muitos na Terra, Deus não nos pode ver a todos”. Escutem bem isto, meus amigos: quando estão sobre o cume de uma montanha, o seu olhar não abarca milhares de grãos de areia que a cobrem? Muito bem! Deus lhes observa da mesma maneira. Ele lhes deixa o livre- arbítrio, como também deixam esses grãos de areia ao sabor do vento que os dispersa. Mas Deus, em Sua misericórdia infinita, colocou no fundo de seus corações uma sentinela vigilante, que se chama consciência. Escutem-a, ela somente lhes dará bons conselhos. Algumas vezes conseguis entorpecê-la, opondo-lhe o espírito do mal e, então, ela se cala; mas estejam certos de que a pobre relegada se fará ouvir assim que a deixarem notar a sombra do remorso. Escutem-a, interrogai-a, e frequentemente, encontrarão o consolo através dos seus conselhos. Meus amigos, a cada novo regimento, o general envia uma bandeira. Eu lhes dou esta máxima do Cristo: “amem uns aos outros”. Praticai esta máxima: reuni-se ao redor desse estandarte e dele receberão a felicidade e a consolação.
A ajuda ao próximo
Adolfo, Bispo de Argel - Bordeaux, 1861
11. A ajuda ao próximo, meus amigos, lhes dará neste mundo a mais pura e a mais doce das alegrias: as alegrias do coração, que não são perturbadas nem pelos remorsos, nem pela indiferença. Ah! pudessem compreender tudo o que encerra de grande e de agradável a generosidade das belas almas, esse sentimento que faz que se olhe aos outros com o mesmo olhar com que se vê a si mesmo, e que se despoja com alegria para cobrir o seu irmão. Pudessem, meus amigos, não terem uma mais doce ocupação que a de fazer aos outros felizes! Quantas são as festas do mundo que poderiam comparar a essas festas alegres, quando, representantes da Divindade, levais alegria a essas pobres famílias, que conhecem da vida apenas as dificuldades e mudanças e amarguras, ou quando olhardes para esses rostos descorados, mas radiantes de esperança - pois não tinham pão, esses infelizes e seus filhos, - ignorando que viver é sofrer, gritavam, choravam e repetiam estas palavras que, como finos punhais, penetravam o coração materno: “Tenho fome!”. Ah! Compreendam o quanto são deliciosas as impressões daquele que vê renascer a alegria onde, instantes atrás, apenas havia desespero! Compreendam quais são as suas
obrigações diante de seus irmãos! Vão, vão ao encontro do dificuldade, vão em socorro das misérias ocultas, principalmente, pois são as mais dolorosas. Vão, meus bem-amados e lembrem-se destas palavras do Salvador: “Quando vestirdes um desses pequeninos, pensem que é a mim que o fazem!”. Caridade! Palavra sublime que resume todas as virtudes, é você que deve conduzir os povos à felicidade. Praticando-te, eles estarão semeando alegrias celestes para o próprio futuro, e, durante o seu exílio na Terra, será para eles a consolação, a antecipação das alegrias que experimentarão mais tarde, quando se abraçarem, todos unidos, dentro do Deus de amor. Foste você apenas, virtude divina, que me proporcionaste os momentos de felicidade que experimentei na Terra. Possam os meus irmãos encarnados acreditar na voz do amigo que lhes fala e lhes diz: É na caridade que devem buscar a paz do coração, o contentamento da alma, o remédio para as sofrimentos da vida. Ah! Quando estiveres a ponto de acusar a Deus, lancem um olhar para baixo e verão quantas misérias a aliviar, quantas crianças pobres sem família, quantos velhos sem uma só mão amiga para os socorrer e fechar-lhes os olhos quando a morte os reclamar! Quanto bem a fazer! Ah! Não reclameis, ao contrário, agradeçam a Deus e prodigalizai fartamente a sua simpatia, o seu amor, o seu dinheiro a todos os que, excluídos dos bens deste mundo, definham no sofrimento e no isolamento. Colherão aqui na Terra alegrias bem suaves, e mais tarde... só Deus o sabe!
São Vicente de Paulo - Paris, 1858
12. Sejam bons e caridosos: eis a chave dos Céus, que têm nas mãos. Toda a felicidade eterna está encerrada nesta máxima: “amem uns aos outros”. A alma não pode elevar-se às regiões espirituais senão pelo dedicação ao próximo; somente encontra a felicidade e a consolação nos impulsos da caridade. Sejam bons, amparai os seus irmãos, deixem de lado a terrível chaga do egoísmo. Cumprindo esse dever, o caminho da felicidade eterna deve abrir-se para vocês. De resto, quem dentre vocês não sentiu o coração pulsar, sua alegria interior dilatar-se, ao relato de um belo sacrifício, de uma obra verdadeiramente caridosa? Se buscásseis apenas o prazer de uma boa ação, ficariam sempre no caminho do progresso espiritual. Os exemplos não lhes faltam; a boa vontade é que é rara. Vejam a multidão de homens de bem, de que a sua história piedosamente relembra. O Cristo não lhes disse tudo o que se refere a essas virtudes de caridade e de amor? Por que se deixa de lado esses divinos ensinamentos? Por que fechar os ouvidos às Suas divinas palavras, e o coração às Suas doces máximas? Eu desejaria que se desse mais importância, mais fé às leituras evangélicas. Mas abandona-se esse livro, como uma palavra vazia, uma mensagem cifrada, deixa-se esse código admirável no esquecimento. Seus males provêm simplesmente do abandono voluntário desse resumo das leis divinas. Lede, pois, essas páginas ardentes sobre a desapego pessoal de Jesus e reflitam-as.
Homens fortes, armem-se; homens fracos, façam da sua doçura, da sua fé, as suas armas. Tenham mais persuasão, mais constância na propagação de sua nova doutrina. Esse é apenas um encorajamento que viemos lhes dar, e é para estimular-se no zelo e nas virtudes, que Deus permite a nossa manifestação. Mas, se quisésseis, bastaria a ajuda de Deus e da sua própria vontade, pois as manifestações espíritas se produzem somente para os que têm os olhos fechados e os corações indóceis. A caridade é a virtude fundamental que deve sustentar o edifício das virtudes terrenas; sem ela, as outras não existiriam. Sem a caridade, não há esperança num destino melhor, não há interesse moral que nos guie; sem a caridade, não há fé, pois a fé é apenas um raio de luz, que faz brilhar uma alma caridosa. A caridade é a âncora eterna de salvação, para todos os mundos: é a mais pura emanação do próprio Criador; é a Sua própria virtude, que Ele transmite à Sua criatura. Como se poderia desprezar essa suprema bondade? Qual seria o coração suficientemente perverso para, assim pensando, sufocar e depois expulsar esse sentimento inteiramente divino? Que filho seria tão mau para revoltar-se contra esse doce carinho, a caridade? Eu não ouso falar do que fiz, pois os Espíritos também têm o pudor de suas obras, mas considero a que eu comecei como uma das que mais devem contribuir para o alívio de seus semelhantes. Vejo, frequentemente, os Espíritos pedirem por missão continuar a minha tarefa. Eu as vejo, minhas queridas irmãs, em seu piedoso e divino ministério. Eu as vejo praticar a virtude que lhes recomendo, com toda a alegria que proporciona essa existência de desapego pessoal e sacrifícios. É uma grande felicidade, para mim, ver o quanto se enobrece o seu caráter, quanto à sua missão é amada e docemente protegida. Homens de bem, de boa e forte vontade, unam-se para continuar a obra de propagação da caridade. Encontrarão a recompensa dessa virtude no seu próprio exercício. Não há alegria espiritual que ela não proporcione desde a vida presente. Permaneçam unidos, “amem uns aos outros”, segundo os ensinamentos do Cristo. Assim seja.
Cárita, martirizada em Roma - Lyon, 1861
13. Chamo-me Caridade, e sou o caminho principal que conduz a Deus. Sigam-me, pois eu sou o objetivo que devem alcançar. Fiz esta manhã o meu passeio comum e, com o coração angustiado, eu venho dizer-se: Ah! Meus amigos, quanta miséria, quantas lágrimas e quanto têm a fazer para secá-las todas! Em vão, tentei consolar as pobres mães, dizendo-lhes ao ouvido: “Coragem! Há bons corações que velam por vocês, que não lhes abandonarão; paciência! Deus existe, e vocês são as Suas amadas, as Suas eleitas”. Elas pareciam ouvir-me, e voltavam para mim os seus grandes olhos ansiosos. Eu lia em seus pobres semblantes que o corpo, esse tirano do Espírito, tinha fome, e que, se as minhas palavras tranquilizavam um pouco os seus corações, não lhes saciavam o
estômago. Eu repetia: “Coragem, Coragem!”. Então, uma pobre mãe, bem jovem, que amamentava uma criancinha, tomou-a nos braços e ergueu-a no espaço vazio, como para pedir-me que protegesse aquele pobre e pequeno ser que tomava, num seio estéril, apenas um alimento insuficiente. Mais adiante, meus amigos, eu vi pobres velhos sem trabalho e sem abrigo, sofrendo todo o tipo de necessidades. Envergonhados de sua miséria, não ousavam - eles que nunca mendigaram - pedir ajuda a piedade dos transeuntes. Com o coração repleto de compaixão, eu, que nada tenho, me fiz mendiga por eles e vou por todos os lados estimular a ajuda ao próximo, inspirar bons pensamentos aos corações generosos e compassivos. Por isso venho até vocês, meus amigos, e lhes digo: lá adiante há infelizes, cuja cesta está sem pão, a lareira sem fogo e o leito sem cobertas. Não lhes digo o que devem fazer, mas deixo a iniciativa aos seus bondosos corações. Se lhes ditasse a linha de conduta, não teriam o mérito de suas boas ações. Eu lhes digo somente: Sou a caridade e lhes estendo a mão pelos seus irmãos sofredores. Mas se peço, dou também, e muito; convido-se a um grande festim, e lhes forneço a árvore em que vocês todos poderão saciar-se! Vejam como é bela, como está carregada de flores e frutos! Vão, vão, colhei, tomem todos os frutos dessa bela árvore que se chama ajuda ao próximo. No lugar dos ramos que lhe arrancardes, colocarei todas as suas boas ações e levarei essa árvore a Deus para que a carregue de novo, pois a ajuda ao próximo é inesgotável. Sigam-me, meus amigos, para que eu lhes possa contar entre aqueles que se alistam sob a minha bandeira. Sejam corajosos e lhes conduzirei ao caminho da salvação, pois eu sou a Caridade!
Cárita - Lyon, 1861
14. Há várias maneiras de se fazer a caridade, e que muitos de vocês confundem com a ajuda material. Há, porém, uma grande diferença entre elas. A ajuda material, meus amigos, é algumas vezes útil, pois ela alivia os pobres; mesmo assim, é quase sempre humilhante, tanto para aquele que a dá quanto para quem a recebe. A caridade, ao contrário, liga o benfeitor e o beneficiário e, além disso, ela se disfarça de muitas maneiras! Pode-se praticar a caridade mesmo entre familiares e amigos, sendo compreensivos uns para com os outros, perdoando-se as fraquezas mútuas, tendo o cuidado para não ferir o orgulho pessoal de ninguém.
Para vocês, espíritas, na sua maneira de agir em relação àqueles que não pensam como vocês, levando os menos esclarecidos a crer, sem os chocar, sem afrontar as suas crenças, mas levando-os amigavelmente às reuniões, nas quais poderão ouvir-nos e onde saberemos encontrar a brecha que nos permitirá penetrar nos seus corações. Esta é uma forma de caridade. Escutem agora o que é a caridade para com os pobres, esses excluídos da Terra, mas recompensados por Deus, se souberem aceitar as
suas misérias sem se lamentar, o que depende de vocês. Vou-me fazer compreender com um exemplo: Vejo, muitas vezes, na semana, uma reunião de senhoras, de todas as idades. Para nós, como o sabem, são todas irmãs. Que fazem elas? Elas trabalham rápido, os dedos são ágeis. Vejam também os rostos, radiantes. E como os seus corações batem em uníssono! Mas qual é o seu objetivo? Elas veem chegar o inverno que será rude para as famílias pobres. As formigas não puderam acumular, durante o verão, os grãos necessários à provisão e a maior parte dos utensílios está empenhada. As pobres mães se inquietam e choram, pensando nos pequeninos que, nesse inverno, sofrerão frio e fome! Mas, paciência, pobres mulheres!
Deus inspirou a outras, mais afortunadas do que vocês. Elas se reuniram e lhes confeccionam pequenas roupas. Assim, quando a neve cobrir a Terra e murmurardes, dizendo: “Deus não é justo!” - pois esta é uma expressão comum nos seus períodos de sofrimento - verão aparecer um dos mensageiros dessas bondosas trabalhadoras, que se constituíram em operárias dos pobres. Sim, é para vocês que elas trabalham assim, e sua lamentação se transformará em bênçãos, pois nos corações dos infelizes, o amor segue de bem perto o ódio. Como todas essas trabalhadoras necessitam de estímulo, vejo as comunicações dos Bons Espíritos lhes chegar de todas as partes. Os homens que participam desta sociedade trarão também o seu concurso, fazendo uma dessas leituras que agradam tanto; e nós, para recompensar o zelo de todos e de cada um em particular, prometemos a essas trabalhadoras laboriosas uma boa clientela, que lhes pagará em moeda sonante de bênçãos, a única moeda que circula no Céu, assegurando-lhes, além disso, e sem medo de nos enganarmos, que ela não lhes faltará.
Um Espírito Protetor - Lyon, 1861
15. Meus caros amigos, todos os dias ouço alguns de vocês dizerem: “Eu sou pobre, não posso fazer caridade”. E todos os dias lhes vejo faltar com a compreensão para com os seus semelhantes. Não lhes perdoais coisa alguma e lhes transformais, muitas vezes, em juízes bem severos, sem lhes perguntar se estaríeis satisfeitos que fizessem o mesmo com vocês. A compreensão também não é caridade? Se somente podem fazer a caridade compreensivo, façam-a ao menos, mas façam-a com grandeza. Para os que fazem a caridade material, eu contarei uma história do outro mundo. Dois homens acabavam de morrer. Deus dissera: enquanto esses dois homens viverem, colocaremos em um saco cada uma de suas boas ações e, quando morrerem, pesaremos esses sacos. Quando chegou a última hora desses homens, Deus mandou que lhe levassem os dois sacos. Um estava pesado, grande, estufado, ressonando o metal dentro dele. O outro era muito pequeno, e tão fino, que se viam através do pano as raras moedas que continha. E cada um dos homens reconheceu o que era seu. Aqui está o meu, disse o primeiro - eu o
conheço; fui rico e distribuí bastante. Eis o meu, disse o outro, eu sempre fui pobre; infelizmente, não tinha quase nada para distribuir. Mas, que surpresa! Quando os dois sacos foram colocados na balança, o maior tornou-se leve, e o menor cresceu tanto, que elevou em muito o outro lado da balança. Então, Deus disse ao rico: Deste muito, é verdade, mas deste por exibição e para ver seu nome figurando em todos os templos do orgulho, e, além disso, ao dar, não te privaste de nada; vai à esquerda e fica satisfeito, por te ser contada a ajuda material como alguma coisa. Em seguida, disse ao pobre: deste bem pouco, meu amigo, mas cada uma dessas moedas que estão na balança representa uma falta para ti. Se não distribuíste a ajuda material, fez a caridade e, melhor ainda, fez a caridade naturalmente, sem te preocupares de que a levassem à sua conta. Foste compreensivo; não julgaste o seu semelhante, ao contrário, desculpastes todas as suas ações. Passa à direita, e vai receber a sua recompensa.
João - Bordeaux, 1861
16. A mulher rica, feliz, que não precisa empregar o seu tempo no serviço da casa, não pode consagrar algumas horas a trabalhos úteis aos seus semelhantes? Que, com o que é além do necessário de seus gastos felizes, ela compre agasalhos para cobrir os infelizes que tremem de frio. Que ela faça, com as suas mãos delicadas, roupas grosseiras, mas quentes, que ajude uma mãe pobre a vestir o filho que vai nascer. Se o seu filho ficar com alguns tecidos a menos, o da pobre mãe terá mais calor. Trabalhar para os pobres é trabalhar na vinha do Senhor. E você, pobre trabalhadora, que não dispões do que é além do necessário, mas que desejas, no amor por seus irmãos, dar também um pouco do que possuis, oferece algumas horas do seu dia, do seu tempo - seu único tesouro - e faça esses trabalhos elegantes que atraem os felizes, vende o produto de seus serões, e poderá também proporcionar a seus irmãos a sua parte de alívio. Terá, talvez, algumas fitas a menos, mas dará sapatos àqueles que tem os pés descalços. E vocês, mulheres devotadas a Deus, trabalhem também para as suas obras piedosas, mas que os seus trabalhos delicados e custosos não sejam feitos apenas para ornar as suas capelas, ou para atrair a atenção sobre a sua habilidade e paciência. Trabalhem, minhas filhas, e que o resultado de seu trabalho seja consagrado ao alívio de seus irmãos em Deus. Os pobres são os Seus filhos bem-amados: trabalhar para eles é glorificá-Lo. Sejam os instrumentos da Providência, que diz: “Às aves do céu, Deus dá o alimento”. Que ouro e prata, tecidos pelas suas mãos, se transformem em roupas e alimentos para aqueles que não os têm. Façam isso, e o seu trabalho será abençoado. E vocês, que podem produzir, deem a sua inteligência, daí as suas inspirações, deem o seu coração, e Deus lhes abençoará. Poetas, literatos, que são lidos apenas pela gente de sociedade, satisfazei os seus sonhos, mas que o produto de algumas das suas obras seja consagrado ao alívio dos infelizes. Pintores,
escultores, artistas de todos os gêneros, que a sua inteligência venha também como ajuda aos seus irmãos. Não terão por isso menos glória, e haverá sofrimentos a menos. Todos vocês podem dar, qualquer que seja a sua condição, terão sempre algo que possa ser dividido. De tudo o que Deus lhes tenha dado, devem uma parte disso aos que não têm o necessário pois, em seu lugar, ficariam muito contentes, se um outro dividisse com vocês. Seus tesouros terrenos serão menores, mas os do Céu serão mais abundantes; colherão cem vezes o que semeardes em benefícios aqui na Terra.
A compaixão
Miguel - Bordeaux, 1862
17. A piedade é a virtude que mais lhes aproxima dos anjos; é a irmã da caridade que lhes conduz até Deus. Ah! Deixem seu coração enternecer-se diante das misérias e dos sofrimentos de seus semelhantes; suas lágrimas são um bálsamo que verteis sobre suas feridas. E quando, tocados por uma doce simpatia, conseguis restituir-lhes a esperança e a aceitação serena, que felicidade experimentais! Essa felicidade tem, é verdade, uma certa amargura, pois nasce ao lado da adversidade, mas, se ele não apresenta o forte sabor das alegrias mundanas, também não traz as dolorosos decepções do vazio deixado por estes. Pelo contrário, há uma suavidade penetrante, que encanta a alma. A piedade bem sentida é o amor; o amor é dedicação; o dedicação é o esquecimento de si mesmo; e esse esquecimento, essa desapego pessoal em favor dos infelizes, é a virtude por excelência, aquela que o divino Mestre praticou em toda a Sua vida e ensinou em Sua doutrina tão santa e sublime. Quando essa doutrina for devolvida à sua pureza primitiva, quando for admitida por todos os povos, ela trará felicidade à Terra, fazendo reinar na sua face a harmonia, a paz e o amor. O sentimento mais apropriado para vocês fazer progredir, domando seu egoísmo e seu orgulho, aquele que dispõe sua alma à humildade, à ajuda ao próximo e ao amor ao próximo - é a piedade! Essa piedade que lhes comove até as entranhas, diante do sofrimento de seus irmãos, que lhes leva a estender-lhes a mão segura e lhes arranca lágrimas de simpatia. Não sufoqueis jamais, em seus corações, essa emoção celeste, nem façam como os egoístas endurecidos que se afastam dos que sofrem, porque a visão de sua miséria perturbaria, por um momento, a sua feliz existência. Temam ficar indiferente quando puderem ser útil. A tranquilidade comprada ao preço de uma indiferença culposa é a tranquilidade do Mar Morto, que esconde no fundo de suas águas a lama fétida e a corrupção. A piedade, porém, está longe de causar transtorno e irritação temidos pelo egoísta! Sem dúvida a alma experimenta, ao contato da infelicidade alheia, confrangendo-se, um estremecimento natural e profundo, que faz vibrar todo o seu ser e lhes afeta penosamente. Mas a compensação é grande, quando conseguis devolver a coragem e a esperança a um irmão
infeliz, que se comove ao aperto da mão amiga, e cujo olhar, orvalhado muitas vezes de emoção e reconhecimento, se volta com doçura para vocês, antes de se elevar ao Céu, agradecendo por lhe haver mandado um consolador, um amparo. A piedade é a melancólica, mas celeste precursora da caridade, a primeira das virtudes da qual é irmã, e cujos benefícios prepara e enobrece as boas ações.
Os crianças sem pais
Um Espírito Protetor - Paris, 1860
18. Meus irmãos, amem as crianças sem pais! Se soubessem o quanto é triste ser só e abandonado, principalmente em tenra idade! Deus permite que existam crianças sem pais, para nos animar a lhes servirmos de pais. Que divina caridade, a de ajudar uma criaturinha abandonada, de impedi-la de passar fome e frio, de orientar a sua alma para que ela não se entregue ao vício! Quem estende a mão à criança abandonada agrada a Deus, pois compreende e pratica a Sua lei. Pensem também que, frequentemente, a criança socorrida lhes foi cara em outra encarnação e, se pudessem lhes lembrar, o que fazem já não seria caridade, mas dever. Sendo assim, meus amigos, todo ser sofredor é seu irmão e tem direito à sua caridade. Não a essa caridade que magoa o coração, não a essa ajuda material que queima a mão que a recebe, pois as suas ajudas materiais são, muitas vezes, bem amargas! Quantas vezes elas seriam recusadas se, no casebre, a doença e a falta não os esperassem! Deem delicadamente, acrescentem à boa ação o bem mais precioso de todos: uma boa palavra, um carinho, um sorriso amigo; evitem esse tom de proteção, que revolve a lâmina no coração que sangra, e pensem que, fazendo o bem, trabalham para o bem alheio e o seu.
Benefícios pagos com a ingratidão
Guia Protetor - Sens, 1862
19. O que pensar das pessoas que, tendo sido pagas com a ingratidão pelo bem que fizeram, não mais o fazem com medo de encontrar outros ingratos?
Essas pessoas têm mais egoísmo do que caridade, pois fazer o bem apenas para receber provas de reconhecimento, não é fazê-lo com desinteresse. O benefício desinteressado é o único que agrada a Deus. É também orgulho, pois elas se comprazem na submissão do beneficiado, que deve rojar-se aos seus pés para agradecer-lhes. Aquele que busca na Terra a recompensa do bem que faz não a receberá no Céu, mas Deus recompensará aquele que assim não age. É preciso sempre ajudar aos fracos, mesmo sabendo de antemão que aqueles a quem fazemos o bem não saberão agradecer. Saibam que, se aquele a quem ajudais esquecer o benefício, Deus o considerará muito mais do que se fossem recompensado pela sua gratidão. Deus permite que sejam muitas vezes
pagos com a ingratidão, para provar a sua persistência em fazer o bem. Além disso, como sabem se esse benefício, momentaneamente esquecido, não trará bons frutos mais tarde? Fiquem certos, ao contrário, que essa é uma semente que germinará com o tempo. Infelizmente, vedes apenas o presente; trabalham para vocês mesmos, e não em benefício dos semelhantes. A benemerência acaba por abrandar os corações mais endurecidos; pode ser ignorada aqui na Terra, mas quando o Espírito tiver se separado da matéria, ele se lembrará, e essa lembrança será o seu próprio castigo; então, ele lamentará a sua ingratidão, desejará reparar a sua falta, pagar essa dívida em outra existência, muitas vezes, aceitando uma vida de dedicação ao seu benfeitor. É assim que, sem suspeitardes, terão contribuído para o seu progresso moral e reconhecerão mais tarde toda a verdade desta máxima: um benefício nunca é perdido. Mas terão trabalhado em proveito próprio também, pois terão o mérito de haver feito o bem com desinteresse, e sem lhes deixar desencorajar pelas decepções. Ah! meus amigos, se conhecêsseis todos os elos que, na vida presente, lhes ligam às existências anteriores: se pudessem abarcar a multiplicidade de relações que aproximam os seres uns dos outros, para seu progresso mútuo, admiraríeis bem mais a sabedoria e a bondade do Criador, que lhes permite reviver para a Ele chegarem.
Ajuda ao próximo exclusiva
São Luís - Paris, 1860
20. A ajuda ao próximo é bem-compreendida, quando se limita às pessoas de uma mesma opinião, da mesma crença ou de um mesmo partido? Não, é principalmente o espírito de grupo religioso e de partido que é preciso abolir, pois todos os homens são irmãos. O verdadeiro cristão vê irmãos em todos os seus semelhantes e, antes de socorrer o necessitado, não consulta a sua crença, nem a sua opinião, seja qual for. Seguiria ele o ensinamento de Jesus - que manda amar até mesmo os inimigos - se repelisse um infeliz, por ter uma crença diferente da sua? Que o socorra, pois, sem lhe questionar a consciência, mesmo porque, se for um inimigo da religião, será este um meio de fazer que ele a ame. Afastando-o, faria que a odiasse.