Capítulo 17 de 28 · linguagem simples
Sejam melhores a cada dia
O que caracteriza uma pessoa de bem e o esforço de melhorar a si mesmo.Características da perfeição - O homem de bem - Os bons espíritas - Parábola do semeador - Instruções dos Espíritos: O dever - A virtude - Os superiores e os inferiores - O homem no mundo - Cuidar do corpo e do Espírito.
Características da perfeição
1. “Amem os seus inimigos, façam o bem àqueles que lhes odeiam e orem pelos que lhes perseguem e caluniam, para serem filhos de seu Pai que está nos Céus; o qual faz nascer o seu sol sobre bons e maus, e vir chuva sobre justos e injustos, pois se apenas amem aqueles que lhes amam, que recompensa teriam? Os cobradores de impostos não fazem o mesmo? E se saudarem apenas os seus irmãos, que fazem nisso de especial? Os não judeus também não
o fazem? Sejam, pois, perfeitos como seu Pai celestial é perfeito.” (Mateus, V:44-48)
2. Desde que Deus possui a perfeição infinita em todas as coisas, esta máxima: “Sejam perfeitos como o seu Pai celestial é perfeito”, tomada ao pé da letra, faria supor a possibilidade de atingirmos a perfeição absoluta. Se fosse dado à criatura ser tão perfeita quanto o seu próprio Criador, ela o igualaria, o que é inadmissível. Mas os homens aos quais Jesus se dirigia não teriam compreendido essa questão. Ele se limitou a lhes apresentar um modelo, e dizer que se esforçassem para atingi-lo. É preciso entender, portanto, por essas palavras, a perfeição relativa, aquela à qual a Humanidade é suscetível, e que a aproxima da Divindade. Em que consiste esta perfeição? Jesus disse: “Amar aos inimigos, fazer o bem aos que lhes odeiam, orar por aqueles que lhes perseguem e caluniam”. Ele mostra com isto que a essência da perfeição é a caridade, em Seu mais amplo conceito, pois ela implica a prática de todas as outras virtudes. Na verdade, se observarmos os resultados de todos os vícios e mesmo dos mais simples defeitos, reconheceremos que não há nenhum que não altere mais ou menos o sentimento de caridade, pois todos têm o seu princípio no egoísmo e no orgulho, que são a sua negação. Tudo o que excita o sentimento da personalidade destrói ou, ao menos, enfraquece os elementos da verdadeira caridade, que são: a bondade, a compreensão, o sacrifício e o dedicação. O amor ao próximo levado até o amor aos inimigos, não podendo ligar-se a nenhum defeito contrário à caridade, é sempre, por isso, o indício de uma maior ou menor superioridade moral. Disto resulta que o grau de aperfeiçoamento está na proporção da extensão desse amor. É por isso que Jesus, depois de haver dado aos Seus discípulos as regras da caridade, no que elas têm de mais sublime, lhes disse: “Sejam, então, perfeitos, como seu Pai celestial é perfeito”.
O homem de bem
3. O verdadeiro homem de bem é aquele que pratica a lei de justiça, de amor e de caridade, em sua maior pureza. Se interroga a sua consciência sobre os próprios atos, pergunta se não violou essa lei, se não fez algum mal, se fez todo bem que podia, se negligenciou voluntariamente uma ocasião de ser útil, se ninguém tem nada contra ele, enfim, se fez aos outros tudo o que queria que os outros fizessem por ele. Ele tem fé em Deus, em Sua bondade, justiça e sabedoria; sabe que nada acontece sem a sua permissão e submete-se à sua vontade em todas as coisas. Tem fé no futuro e, por isso, coloca os bens espirituais acima dos temporais. Sabe que todas as dificuldades e mudanças da vida, todas as dores, decepções, são provas ou experiências de reparação, e as aceita sem lamentações. O homem possuidor do sentimento de caridade e amor ao próximo faz o bem pelo bem, toma a defesa do fraco contra o forte e sacrifica sempre o seu interesse à justiça.
Encontra sua satisfação nos benefícios que distribuiu, nos serviços que presta, na felicidade que promove, nas lágrimas que faz secar, no consolo que dá aos que sofrem. Seu primeiro impulso é pensar nos outros, antes que em si mesmo, de buscar o interesse dos outros antes dos seus. O egoísta, ao contrário, calcula os benefícios e as perdas de cada ação generosa. O homem de bem é bom, humano e bondoso para com todos, sem distinção de raças e crenças, pois vê todos os homens como irmãos. Respeita nos outros todas as crenças sinceras, e não lança o anátema1 aos que não pensam como ele. Em todas as circunstâncias, a caridade é o seu guia. Considera que aquele que prejudica os outros com palavras maldosas, que fere a sensibilidade alheia com seu orgulho e desprezo, que não recua à ideia de causar um sofrimento, uma contrariedade, por menor que seja, quando a pode evitar, falta com o dever de amor ao próximo e não merece a clemência do Senhor. Não tem ódio, nem rancor, nem desejos de vingança. A exemplo de Jesus, perdoa e esquece as ofensas, e não se lembra dos benefícios, pois sabe que será perdoado, assim como houver perdoado. É compreensivo para com as fraquezas alheias, pois sabe que ele mesmo precisa de compreensão, e se recorda dessas palavras do Cristo: “Que aquele que estiver sem pecado atire a primeira pedra”.
Não se compraz em buscar os defeitos dos outros nem em colocá-los em evidência. Se a necessidade o obriga a isso, busca sempre o bem que pode atenuar o mal. Estuda as suas próprias imperfeições e trabalha sem cessar para combatê-las. Todos os seus esforços tendem para que possa dizer, amanhã, que há nele algo de melhor do que na véspera. Não procura destacar nem as suas qualidades, nem os seus talentos, às expensas dos outros. Aproveita, ao contrário, todas as ocasiões para ressaltar as vantagens dos outros.
Não se envaidece com a sua sorte, nem com as vantagens pessoais, pois sabe que tudo o que lhe foi dado pode lhe ser tirado.
Condenação - Crítica enérgica. (N. do E.)
Usa, mas não abusa dos bens que lhe são confiados, pois sabe que é um depositário desses bens dos quais deverá prestar contas, e que o emprego mais prejudicial para si mesmo, que poderá dar-lhes, é pô-los ao serviço da satisfação de suas paixões. Se a ordem social colocou alguns homens sob a sua dependência, trata-os com bondade e bondade, pois são seus semelhantes diante de Deus. Ele usa de sua autoridade para erguer-lhes o moral, e não para lhes ferir com o seu orgulho, e evitar tudo o que poderia tornar mais difícil a posição subalterna. O subordinado, por sua vez, compreende os deveres de sua posição e tem escrúpulos em realizá-los conscienciosamente. (Ver Cap. XVII, no 9) O homem de bem, enfim, respeita nos seus semelhantes todos os direitos que lhes são assegurados pelas leis da Natureza, como gostaria que respeitassem os seus. Essas não são todas as qualidades que distinguem o homem de bem, mas quem quer que se esforce para possuí-las está no caminho que conduz a todas as outras.
Os bons espíritas
4. O Espiritismo bem compreendido, mas, principalmente, bem sentido, conduz forçosamente aos resultados acima, que caracterizam o verdadeiro espírita, como o verdadeiro cristão, pois um e outro são a mesma coisa. O Espiritismo não criou nenhuma nova moral, mas facilita aos homens a compreensão e a prática da moral do Cristo, ao proporcionar uma fé sólida e esclarecida àqueles que duvidam ou vacilam.
Muitos daqueles que creem na realidade das manifestações não compreendem nem as consequências nem o seu alcance moral, ou, se os compreendem, não os aplicam a si mesmos. Por que acontece isso? Será por uma falta de precisão da doutrina? Não, pois ela não traz símbolos, nem figuras que pudessem dar lugar a falsas interpretações. A clareza é a sua própria essência, e é isso que lhe dá força, pois vai direto à inteligência. Nada tem de misteriosa e seus iniciados não estão de posse de nenhum segredo oculto ao povo. É necessário, então, para compreendê-la, uma inteligência fora do comum? Não, pois vemos homens de capacidade notória que não a compreendem, enquanto inteligências comuns, jovens que mal saíram da adolescência, apreendem, com uma admirável clareza as nuanças mais delicadas. Isso ocorre porque a parte material da Ciência não requer nada além de olhos para ser observada, enquanto que a parte essencial pede um certo grau de sensibilidade, que se pode chamar de
maturidade do senso moral, maturidade essa independente da idade ou do grau de instrução, pois ela é inerente ao desenvolvimento, num sentido especial, do Espírito encarnado.
Para alguns, os laços da matéria estão ainda muito tenazes para permitir ao Espírito desprender-se das coisas da Terra. O nevoeiro que os envolve lhes impede a visão do infinito, e é por isso que não conseguem romper facilmente com os seus gostos, nem com os seus hábitos, não compreendendo que possa haver nada melhor além do que aquilo que possuem. A crença nos Espíritos é para eles um simples fato, mas não modifica nada - ou pouco - as suas tendências instintivas. Em resumo, eles veem apenas um raio de luz, insuficiente para orientá-las e dar-lhes uma aspiração profunda, capaz de vencer as suas tendências. Apegam-se aos fenômenos mais do que à moral - que lhes parece banal e monótona. Pedem aos Espíritos que incessantemente os iniciem em novos mistérios, sem indagarem se são dignos de penetrar os segredos do Criador. São, afinal, os espíritas imperfeitos. Alguns ficam no caminho ou se afastam de seus irmãos de crença, porque recuam diante da obrigação de se transformarem a si próprios, ou então reservam suas simpatias por aqueles que comungam de suas fraquezas e prevenções. Porém, a aceitação do princípio da doutrina é um primeiro passo, que lhes facilitará o segundo, em outra existência. Aquele que podemos, com razão, qualificar de verdadeiro e sincero espírita está num nível superior de aperfeiçoamento moral. O Espírito que já domina mais completamente a matéria e lhe dá uma percepção mais clara do futuro; os princípios da doutrina fazem vibrar nele as fibras, que permanecem mudas nos primeiros; em resumo, ele foi tocado no coração, e sua fé é, por isso, inabalável. Um é como o músico que se comove com alguns acordes, enquanto o outro apenas ouve os sons.
Reconhece-se o verdadeiro espírita pela sua transformação moral e pelos esforços que faz para dominar as suas más inclinações. Enquanto um se compraz no seu horizonte limitado, o outro, que compreende a existência de alguma coisa melhor, esforça-se para se libertar, e sempre o consegue, quando tem força de vontade.
Parábola do semeador
5. “Nesse mesmo dia, tendo saído de casa, Jesus sentou-se à beira do mar. E vieram para Ele muitas pessoas, de tal modo que subiu num barco, onde se sentou, enquanto o povo permaneceu na praia; e Ele lhes falou muitas coisas por parábolas, dizendo: Eis que saiu o semeador a semear e, enquanto semeava, uma parte da semente caiu ao longo do caminho, e vieram os pássaros do céu, e comeram-na. Outra semente caiu em lugar pedregoso, onde não havia muita terra, mas nasceu assim mesmo, embora a terra não tivesse profundidade. Mas tendo o sol se erguido, a queimou e, como não tinha raiz, ela secou. Outra igualmente caiu
sobre os espinhos, e cresceram os espinhos, e estes a sufocaram. Uma outra caiu, finalmente, em boa terra, e dava frutos. Alguns grãos rendiam cem para um, outros a sessenta, outros a trinta. O que tenha ouvidos de ouvir, ouça.” (Mateus, XIII:1-9) “Escutem a parábola daquele que semeia. Aquele que ouve a parábola do Reino e não a entende, o espírito do mal vem e carrega o que foi semeado em seu coração; é aquele que recebeu a semente ao longo do caminho. Aquele que recebe a semente em meio às pedras é o que ouve a palavra, e hoje a recebe no momento com alegria; mas ele não tem em si raízes, antes é de pouca duração. E quando acontecem as dificuldades e as perseguições por amor da palavra, logo se escandaliza. O que recebe a semente entre os espinhos é aquele que ouve a palavra mas, em seguida, as preocupações deste mundo e o engano das riquezas sufocam nele a palavra e a tornam infrutífera. Mas aquele que recebe a semente em terra boa é o que ouve a palavra e a entende, e dá fruto, às vezes cem, e outro sessenta, e outro trinta por um.” (Mateus, XIII:18-
23)
6. A parábola da semente representa perfeitamente as diversas maneiras pelas quais podemos praticar os ensinamentos do Evangelho. Quantas pessoas há, na verdade, para as quais ele é apenas uma ensinamento sem aplicação prática, que, semelhante à semente caída nas pedras, não produz fruto algum! Ela encontra uma aplicação, não menos justa, nas diferentes categorias de espíritas. Não é o símbolo daqueles que se ligam apenas aos fenômenos materiais, deles não tirando nenhum proveito, pois os veem como um simples objeto de curiosidade? Daqueles que buscam apenas o brilho das comunicações espíritas, e interessando-se por elas apenas para satisfazer a sua imaginação, mas que, depois de vê-las realizadas, continuam tão frios e indiferentes como antes. Que acham muito bons os conselhos e os admiram, mas deixam a aplicação deles para os outros e não para si mesmos? Daqueles, enfim, para quem essas instruções são como as sementes caídas na boa terra e produzem frutos.
Instruções dos Espíritos
O dever
Lázaro - Paris, 1863
7. O dever é a obrigação moral, primeiro para consigo mesmo, em seguida para com os outros. O dever é a lei da vida: encontramo-lo tanto nos mínimos detalhes como nos atos mais elevados. Quero falar aqui somente do dever moral, e não daqueles impostos pelas profissões. Na ordem dos sentimentos, o dever é muito difícil de ser cumprido, pois se encontra em campo oposto ao das seduções do interesse e do coração. Suas vitórias não têm testemunhas, e suas derrotas não sofrem repressão. O dever íntimo do homem está entregue ao seu livre-arbítrio: o aguilhão da consciência, esse guardião da probidade interior, o adverte e sustenta, mas ele se torna, muitas vezes, impotente diante dos
sofismas da paixão. O dever do coração, fielmente observado, eleva o homem. Mas como precisar esse dever? Onde ele começa? Onde termina? O dever começa, precisamente, no ponto em que ameaçais a felicidade ou a paz do seu próximo, e termina no limite em que não desejaríeis ver transposto em relação a vocês mesmos.
Deus criou todos os homens iguais para a dor; pequenos ou grandes, ignorantes ou esclarecidos, sofrem todos pelas mesmas causas, para que cada um pese judiciosamente o mal que pode fazer. O mesmo critério não existe para o bem, infinitamente mais variado nas suas expressões. A igualdade diante da dor é uma sublime previsão de Deus, que quer que os Seus filhos, instruídos pela experiência comum, não cometam o mal, alegando o desconhecimento de seus efeitos. O dever é o resumo prático de todas as especulações morais. É uma intrepidez da alma, que enfrenta as angústias da luta. É austero e dócil, pronto a dobrar-se às mais diversas complicações, mas permanecendo inflexível diante de suas tentações. O homem que cumpre seu dever ama a Deus mais do que às criaturas e às criaturas mais do que a si mesmo. Ele é, a um só tempo, juiz e réu em sua própria causa. O dever é o mais belo galardão da razão; nasce dela como o filho nasce de sua mãe. O homem deve amar o dever, não porque ele o preserve dos males da vida, aos quais a Humanidade não pode subtrair-se, mas porque ele dá à alma o vigor necessário ao seu desenvolvimento. O dever se engrandece e esplende, sob uma forma, sempre mais elevada, em cada uma das etapas superiores da Humanidade. A obrigação moral da criatura em relação a Deus jamais cessa. Ela deve refletir as virtudes do Eterno, que não aceita um esboço imperfeito, mas deseja que a grandeza da Sua obra resplandeça aos seus olhos.
A virtude
François-Nicolas-Madeleine - Paris, 1863
8. A virtude, no seu mais alto grau, comporta o conjunto de todas as qualidades essenciais que constituem o homem de bem. Ser bom, caridoso, trabalhador, sóbrio, modesto, são as qualidades do homem virtuoso. Infelizmente, elas são, muitas vezes, acompanhadas de pequenas falhas morais, que as deslustram e enfraquecem. Aquele que faz alarde de sua virtude não é virtuoso, já que lhe falta a qualidade principal: a modéstia, e possui o vício contrário, o orgulho. A virtude verdadeiramente digna desse nome não gosta de exibir-se. Nós a percebemos, mas ela se esconde na sombra e foge à admiração das multidões. São Vicente de Paulo e o digno Cura d’Ars eram virtuosos. E assim muitos outros, pouco conhecidos do mundo, mas conhecidos de Deus. Todos esses homens de bem ignoravam que eram virtuosos, pois deixavam-se levar pela corrente de suas santas inspirações e praticavam o bem com absoluto desinteresse e completo esquecimento de si mesmos. É para essa virtude, assim compreendida e praticada, que
eu lhes convido, meus filhos. É a essa virtude verdadeiramente cristã e espírita, que lhes convido a consagrar-se. Mas afastem de seus corações o sentimento do orgulho, da vaidade e do orgulho pessoal, que deslustram sempre as mais belas qualidades. Não imiteis esse homem que se apresenta como modelo e se gaba das próprias qualidades, para todos os ouvidos tolerantes. Essa virtude de exibição esconde, quase sempre, uma infinidade de pequenas maldades e odiosas fraquezas. Em princípio, o homem que exalta a si mesmo, que eleva estátuas à sua própria virtude, aniquila com essa única atitude, o mérito efetivo que poderia ter. Mas o que direi daquele para o qual todo o valor é parecer o que não é? Eu realmente admito que o homem que faz o bem sente, no fundo do coração, uma satisfação íntima, mas desde que essa satisfação se exterioriza, para provocar elogios, degenera em orgulho pessoal. Oh, vocês todos, a quem a fé espírita reanimou com seus raios e que sabem quanto o homem está longe da perfeição, jamais lhes entregueis a essa presunção! A virtude é uma graça, que desejo a todos os espíritas sinceros, mas com esta advertência: mais vale menos virtudes com modéstia do que muitas com orgulho. É pelo orgulho que as gerações vão se perdendo; é pela humildade que elas um dia deverão redimir-se.
Superiores e inferiores François-Nicolas-Madeleine, Cardeal
Morlot - Paris, 1863
9. A autoridade, assim como a fortuna, é uma delegação, de que se pedirá contas a quem dela foi investido. Não creiam que ela seja dada para vocês proporcionar o sem importância prazer de mandar, tampouco, segundo acredita falsamente a maior parte dos poderosos da Terra, como um direito ou uma propriedade. Deus, porém, tem demonstrado suficientemente que ela não é uma coisa nem outra, já que Ele a retira quando bem lhe agrada. Se fosse um privilégio inerente à pessoa que a exerce, seria inalienável. Ninguém pode, então, dizer que uma coisa lhe pertence, quando lhe pode ser tirada sem o seu consentimento. Deus dá a autoridade a título de missão ou de prova, conforme lhe convém, e a retira do mesmo modo. Quem quer que seja depositário da autoridade, independente da extensão que esta seja, desde o senhor sobre o seu escravo até a do soberano sobre o povo, não deve esquecer-se de que é um encarregado de almas, e responderá pela boa ou má orientação que der aos seus subordinados, bem como as faltas que estes poderão cometer, os vícios aos quais serão arrastados, em consequência dessa orientação ou de maus exemplos recebidos. Da mesma maneira, recolherá os frutos da sua cuidado, por conduzi-los ao bem. Todo homem, na Terra, tem uma missão - pequena ou grande. Qualquer que seja, sempre lhe é dada para o bem. Desviá-la, pois, no seu sentido, é fracassar no seu cumprimento. Se Deus pergunta ao rico: O que fizeram da
fortuna que deveria ser, em suas mãos, uma fonte perene de fecundidade em seu redor? Igualmente perguntará àquele que possui alguma autoridade: Que uso fez dessa autoridade? Que males impediste? Que progressos impulsionastes? Se te dei subordinados, não foi para torná-los escravos de sua vontade, nem instrumentos dóceis para seus caprichos e da sua ganância. Eu te fiz forte e te confiei os fracos, para sustentá- los e ajudá-los a subir até mim. O superior que guardou as palavras do Cristo não despreza nenhum dos seus subordinados, porque sabe que as diferenças sociais não subsistem diante de Deus. O Espiritismo lhe ensina que, se eles hoje lhe obedecem, já podem tê-lo dirigido, ou poderão direcionem-lo mais tarde, e que então será tratado como os tratou. Se o superior tem deveres a cumprir, o inferior também os tem por sua vez, e não são menos sagrados. Se este último for espírita, a sua consciência lhe dirá, ainda mais fortemente, que não está dispensado de cumpri-los, mesmo que o seu chefe não cumpra os dele, pois sabe que não se deve pagar o mal com o mal, e que as faltas de uns não autorizam as faltas dos outros. Se ele sofre com a sua posição, dirá que sem dúvida o mereceu, pois ele mesmo, talvez tenha abusado antigamente da sua autoridade, e deve sentir, por sua vez, os inconvenientes que fez os outros sofrerem. Se ele for obrigado a suportar essa posição, por falta de outra melhor, o Espiritismo lhe ensina a resignar-se a isso, como uma prova para a sua humildade, necessária ao seu progresso. Sua crença o guia em sua conduta: ele age como gostaria que seus subordinados agissem com ele, caso fosse o chefe. Por isso, é mais escrupuloso no cumprimento de suas obrigações, pois compreende que toda negligência no trabalho que lhe foi confiado será um prejuízo para aquele que o remunera, e a quem deve o seu tempo e as suas preocupações. Em resumo, ele é guiado pelo sentimento do dever que a sua fé lhe inspira, e a certeza de que todo desvio do caminho reto será uma dívida, que deverá pagar cedo ou tarde.
O homem no mundo
Um Espírito Protetor - Bordeaux, 1863
10. Um sentimento de piedade deve sempre animar os corações daqueles que se reúnem sob o olhar do Senhor e imploram a assistência dos bons Espíritos. Purificai, portanto, os seus corações; não deixem que pensamentos sem importância ou mundanos os perturbem. Elevem o seu Espírito até aqueles a quem chamam, para que, encontrando em vocês as disposições necessárias, possam lançar muitas sementes para germinar em seus corações, e neles produzir os frutos da caridade e da justiça. Não creiam, porém, que ao lhes orientar com firmeza incessantemente à prece e à evocação mental, queiramos lhes propor uma vida mística, que lhes mantenha à parte das leis da sociedade na qual estão condenados a viver. Não. Vivei como os homens de sua época, como devem viver os
homens: sacrifiquem-se às necessidades, às frivolidades de cada dia, mas sacrifiquem-se com um sentimento de pureza que as possa santificar. Foram chamados a entrar em contato com espíritos de natureza diferente, de caracteres antagônicos: não melindreis a nenhum daqueles com quem lhes encontrarem. Sejam alegres, felizes, mas com a alegria de uma boa consciência e a felicidade do herdeiro do Céu, que conta os dias que o aproximam da sua herança. A virtude não consiste em vestir-se com aspectos lúgubres e severos, em recusar os prazeres que a sua condição humana permite. Basta referir todos os seus atos ao Criador, que lhes deu a vida. Basta, ao começar ou terminar uma tarefa, que eleveis o pensamento ao Criador, e Lhe pedir, num impulso da alma, a Sua proteção para executá-la ou a Sua bênção para a obra terminada. O que quer que façam voltem-se à fonte suprema. Nada façam sem que a lembrança de Deus venha purificar e santificar os seus atos. A perfeição, como disse o Cristo, está inteiramente na prática da caridade sem limites, pois os deveres da caridade se estendem a todas as posições sociais, desde a menor até a mais elevada. O homem que vivesse isolado não teria como exercer a caridade. Somente no contato com os seus semelhantes, nas lutas mais difíceis, é que ele encontra a ocasião de praticá-la. Aquele que se isola se priva, voluntariamente, do meio mais poderoso de aperfeiçoamento: tendo que pensar apenas nele mesmo, sua vida é a de um egoísta. (Cap. V, no 26.) Não imagineis, então, que para viver em comunicação constante conosco, para viver sob os olhos do Senhor, seja preciso entregar-se ao cilício2 e cobrir-se de cinzas. Não, mais uma vez, não. Sejam felizes segundo as necessidades humanas, mas que em sua felicidade não entre jamais um pensamento, um ato que possa ofender a Deus ou velar o rosto daqueles que lhes amam e lhes dirigem. Deus é amor e abençoa aqueles que amam santamente.
Cuidar do corpo e do Espírito
Jorge, Espírito Protetor - Paris, 1863
11. A perfeição moral consiste na maceração do corpo? Para responder a essa questão, eu me apoio em princípios elementares e
começo demonstrando a necessidade de cuidar do corpo, que, segundo as alternativas de saúde e doença, influem de maneira muito importante sobre a alma, pois temos de considerá-la como cativa na carne. Para que essa prisioneira viva, movimente-se e conceba a ilusão da liberdade, o corpo deve estar são, disposto, vigoroso. Estabelecemos uma comparação: eis que ambos se encontrem em perfeito estado; que devem fazer para manter o equilíbrio entre as suas aptidões e as suas necessidades tão diferentes? O embate entre eles parece inevitável e difícil chegar ao segredo do equilíbrio. Temos dois
sistemas que se defrontam neste caso: o dos ascetas, que desejam abater o corpo, e o dos materialistas, que querem diminuir a alma. Duas violências igualmente insensatas. Ao lado dessas duas correntes, fervilha a multidão dos indiferentes, que, sem crença nem paixão, amam sem ardor e vivem com parcimônia. Onde está a sabedoria? Onde está a ciência do viver? Em parte alguma. E esse grande problema ficaria inteiramente por resolver, se o Espiritismo não viesse em auxílio dos pesquisadores, demonstrando-lhes as relações existentes entre o corpo e a alma, e dizer-lhes que, já que são necessários um ao outro, é indispensável cuidar de ambos. Amem, então, a sua alma, mas cuidem também do corpo, instrumento da alma. Desconhecer as necessidades que lhe são peculiares pela sua própria natureza é desconhecer a lei de Deus. Não castigueis o corpo pelas faltas que o seu livre-arbítrio o fez cometer, e do qual ele é tão responsável quanto o cavalo malconduzido o é, pelos acidentes que causa. Seriam mais perfeitos se, martirizando o corpo, continuásseis egoístas, orgulhosos e pouco caridosos com o seu próximo? Não. A perfeição não está nisso. Ela está nas transformações a que submeterdes o seu Espírito. Dobrai-o, submetei-o, humilhai-o, castiguem-o: esse é o meio de torná-lo dócil à vontade de Deus, e o único meio de vocês conduzir à perfeição.